16 julho, 2013

HIPSTER

Alfred Eisenstaedt|1939

Graças à minha filha, sei há anos o que é um geek ou um nerd. Acabei agora também de saber o que é um hipster. Desta vez, porém, para além de saber o que é um hipster fiquei igualmente a saber que sou um hipster: uma pessoa que se esforça por ser diferente das outras, assim com uma espécie de horror à normalidade.
Não, não como gafanhotos fritos, não durmo debaixo da cama com medo que o tecto me caia em cima, não sou do Sporting, não levo o rádio para a praia para ouvir a missa da Rádio Renascença deitado na areia enquanto como um Magnum de amêndoas, nem tenho o hábito de andar em casas de banho públicas a espreitar os pirilaus dos portugueses. Serei um hipster devido a razões bem mais bizarras, radicais e fracturantes: não tenho facebook, não vejo televisão, odeio praxes académicas e, cereja em cima do bolo, tcharam!, tenho uns óculos de hipster.  
Ter filhos é bom mas também tem os seus inconvenientes. Um deles é sermos obrigados a olhar para nós próprios numa fase da vida em que já devíamos adormecer tranquilamente no sofá com o Expresso espalhado pelo corpo e metade da sala. Em vez disso, tive ontem dificuldade em adormecer apoquentado com a ideia de poder não ser normal.
Serei normal, não serei normal? Serei normal, não serei normal? Serei normal, não serei normal? Mais até do que de uma angústia existencial, trata-se de uma angústia sociológica. A questão aqui não é saber de onde venho, para onde vou ou se posso vir a encontrar a Marilyn Monroe no além depois de morrer. A questão é saber se sou ou não como os outros, se sigo um padrão, uma média. Quando olho para os gráficos sociológicos sinto-me um pouco como se devia sentir o Kierkegaard sempre que olhava para o sistema hegeliano e perguntava: "Mas onde raio estou eu no meio desta merda?" A sociologia faz-me sempre sentir um átomo, um carneiro, um norte-coreano ou, pior ainda, um membro de um grupo parlamentar. E acho aborrecida a ideia de fazer o que os outros fazem, dizer o que os outros dizem ou gostar do que os outros gostam.
Mas não me importo que tal aconteça desde que seja isso que eu ache que deva acontecer. Há muitas coisas que não são boas só porque quase toda a gente gosta delas. Não. O que acontece é que quase toda a gente gosta delas precisamente porque são boas, e dessas não me importo também de gostar. O que se torna um bocadinho chato é às vezes quase toda a gente dizer coisas, fazer coisas ou gostar de coisas, sem se saber muito bem por que razão é assim. Quer dizer, não tem mal nenhum. A vida está cheia de convenções sociais sem uma ponta de racionalidade. Mas não tem que ser assim.
O que eu acho é que a obsessão em ser diferente dos outros pode acabar por ser tão idiota como a obsessão em querer ser como os outros. Aquele que vive para ter que ser diferente dos outros acaba por reproduzir os comportamentos de todos aqueles que querem ser diferentes dos outros, o que é uma forma de ser aquilo que outros são. Ora, eu não quero ser igual nem diferente. Eu simplesmente olho para mim e depois logo vejo o que me apetece ou não fazer. Não vejo televisão porque acho uma seca ver televisão. Se não achasse, veria televisão. Não tenho facebook porque já tive e aquilo irritava-me e eu não gosto de coisas que me irritem. Se não me irritasse eu teria facebook. Se as praxes académicas fossem dignas de seres racionais, eu alinharia nas praxes académicas. E tenho os óculos que tenho porque quando entrei na loja para os comprar foi destes que eu mais gostei depois de ter experimentado meia dúzia.
Dr Freud, serei anormal? Serei normal? Ajudem-me, por favor!