24 julho, 2013

EGO SPAM

Billy Wilder | Some like it Hot [fotograma]

No seu primeiro filme como actor de cinema, It Should Happen to You, Jack Lemmon lê de uma assentada meia página e começa a representar efusivamente. George Cukor, de imediato, manda cortar.  Aproxima-se do actor e diz-lhe que muito bem, foi estupendo, vai ser uma grande estrela mas que deve ser mais contido. E explica-lhe, pedagogicamente, a diferença entre representar no teatro e no cinema. Que no teatro o actor está afastado do público enquanto no cinema, com os grande planos, não pode haver tanto entusiasmo no modo como o actor representa. Que deve, portanto, ser menos enérgico. E manda repetir. Depois de umas 12 vezes em que mandou repetir, pedindo sempre menos intensidade na representação, Lemmon reage:"Senhor Cukor, por amor de Deus, a continuar assim vou acabar por não representar em absoluto". E Cukor respondeu: "Agora, sim, vamos entender-nos".
A minha irritação com o Facebook foi assim um bocadinho como a irritação de Cukor perante a representação de Lemmon. Não só uma feira de vaidades mas também aquela luta muito adolescente contra a invisibilidade. Com garotos dá-se o desconto. Com adultos torna-se insuportável assistir ao triste espectáculo de pessoas a gritarem "Olhem para mim", "Reparem nas coisas que eu faço ou que sei", "Vejam como sou divertido", "Não se esqueçam (diariamente) que eu existo".
O brasileiro Francisco Bosco cunhou exemplarmente este fenómeno: ego spam. Na mouche.