01 julho, 2013

ABERTURA EM DÓ MAIOR

Sally Mann| Scarred Tree

Romance Sentimental é um pequeno filme de 16 minutos realizado por Serguei Eisenstein e pelo seu operador de câmara em Paris, em 1930. O filme, algo lamechas e aburguesado, é tão atípico e tão completamente diferente das obras ideologicamente épicas do grande mestre soviético, que Luis Buñuel, irado, andou pelos cafés de Paris à procura dele para o esbofetear. 
Apesar da curta duração, o filme consegue ir do muito bom ao insuportavelmente mau, para não dizer atroz. Começa com modernas e alucinantes imagens de uma natureza revoltosa (o mar bravo, vento forte, árvores nuas que caem, céu carregado) que, entretanto, vimos a perceber tratar-se de uma projecção do tormentoso mundo interior de uma mulher que surge depois no seu salão aristocrático, cantando ao piano uma triste canção russa. Uma identificação, portanto, entre a natureza e mulher, sendo cada uma delas uma extensão da outra. Como se a natureza fosse a natureza daquela mulher ou a natureza daquela mulher fosse a natureza da natureza.
Ainda antes das imagens propriamente ditas, acompanhadas de uma música sinistra, o filme, na velha tradição do cinema mudo, abre com uma frase: "Outono...tristeza...amor mortal...eis os temas desta velha canção russa." Um registo outonal, portanto, preparando-nos para o que virá a seguir.
Esta explícita referência ao Outono, logo seguida de imagens de uma natureza amargamente outonal, culminando por fim na tristeza outonal da mulher ao piano, fez-me de imediato lembrar o elemento outonal na frase de abertura de Os Maias, que jamais esqueci quando comecei a lê-lo pela segunda vez: A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida na vizinhança da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela casa do Ramalhete ou simplesmente o Ramalhete.
Ler um livro pela segunda vez é como ver um filme ou ouvir uma sinfonia pela segunda vez. Memorizámos o essencial, a sua estrutura, a sua identidade global. Na segunda vez já estamos mais disponíveis para os pormenores e estabelecer uma relação omnisciente entre o sentido do todo e o sentido das partes, que ganham uma nova visibilidade à luz desse todo.
Ora, quando eu comecei a ler Os Maias pela segunda vez, já sabia como iria acabar e por que iria acabar assim. Comecei portanto em busca do fim, juntando melhor as peças dispersas para construir o puzzle final. Daí ter de imediato levantado as orelhas quando leio que foi no Outono que os Maias se mudaram para o Ramalhete. Terá sido intencional esta referência outonal em vez de ter sido na Primavera ou nem sequer ter referido a estação do ano?
Será que o Outono surge aqui como uma premonição? Uma sombra? Uma mácula simbólica? Um inaudível pio de mocho em cima do ramo sob o qual decorre uma narrativa cujo final trágico todos os seus actores desconhecem?  Bem, podia ter sido no Inverno e seria ainda mais simbólico. Mas o Outono é muito mais subtil do que o Inverno. O Outono faz a ponte entre a luz solar do Estio e a escuridão do Inverno. E Carlos da Maia, rico, bonito, culto, inteligente, vive no Verão, com todas as condições para ser feliz. Vive no Verão mas a sua vida começa muito antes ainda dele nascer. Ele vive no Verão mas é filho do Outono e vai acabar por viver no Outono do seu descontentamento. Daí a história dever começar com um registo outonal. Com a folha que amarelece e cai, as árvores que se despem, um ar frio que começa a pedir agasalho, os dias que definham cada vez mais cedo, o Sol desmaiado por detrás das nuvens escuras. A história, já toda a gente conhece.
Esta referência inicial ao Outono, admito, pode não ter sido intencional. Mas si non é vero è ben trovato.