03 julho, 2013

A FALHA CÍSMICA

Maciek Lesniak

Regresso aos Maias, desta vez ao seu final.
Será correcto ou justo dizer que ter falhado na vida é o mesmo que ter errado na vida? Não. Ter falhado é uma coisa, ter errado uma outra. Errar implica uma responsabilidade por parte de quem erra, o que não acontece necessariamente com o falhar.
Se um tipo disser que 8x7 são 58 e que a capital da Finlândia é Estocolmo, errou e foi responsável pelos erros, uma vez que a verdade das respostas existe objectivamente e dela se desviou por culpa própria: ou sabia as respostas e se enganou por confusão, distracção, precipitação, ou então não sabia e deveria tê-las procurado. Mas imaginemos o seguinte. Um médico, hoje, em 2013, afirma: “O leite ajuda a crescer”. Di-lo porque é verdade e objectivamente verdade. Mas suponhamos que daqui a centenas de anos o ser humano sofre uma mutação genética que fará com que todas as pessoas se tornem alérgicas ao leite, morrendo se o beberem. Sendo assim, a frase, objectivamente verdadeira, “O leite ajuda a crescer” passou a ser falsa. Ora, significa isto que o médico errou ao dizer que o leite ajuda a crescer? Não, porque só a posteriori foi possível saber que, apesar de ser objectivamente verdade, era uma verdade provisória.  E enquanto as verdades matemáticas são verdades que se podem estabelecer a priori, as verdades factuais estão sempre sujeitas às incontroláveis contingências da realidade.
Ora, com a vida das pessoas passa-se o mesmo. A vida não pode ser estudada e entendida a priori como quem estuda tabuada. Não há um manual que possamos estudar de modo que, a posteriori, possamos ser acusados de termos falhado por não o conhecermos ou nos termos enganado. As vidas não podem ser projectadas e construídas como um engenheiro projecta e constrói uma ponte. Porque há regras objectivas para construir uma ponte e se a ponte cair é porque essas regras não foram respeitadas, enquanto uma vida que falha pode nada ter que ver com erros na aplicação de regras previamente conhecidas.
A vida, neste sentido, é mais parecida com o laboratório de um cientista onde se testam hipóteses sobre factos cujos resultados são desconhecidos, do que com uma lição de matemática. Um cientista coloca a hipótese de que comer tomate evita certos tipos de cancro. É uma boa hipótese, é verosímil, vale a pena investir nela. Passados 5 anos de muito trabalho e muito dinheiro gasto, chega-se à conclusão de que a hipótese estava errada. Será que este erro pode ser comparado com as respostas erradas da tabuada? Não, porque estamos a jogar com factos empíricos que tanto podem ser verdadeiros como falsos, e nós não somos omniscientes para podermos estabelecer a priori o que é verdadeiro ou falso. Temos que arriscar. Se não arriscarmos ficamos paralisados. Mas, arriscar implica poder falhar. Só que falhar e errar são coisas diferentes. Somos responsáveis pelos erros mas não somos responsáveis pelas falhas. 
Falhas resultam de actos ou decisões que se pensava não serem falhas no momento em que se cometeram  e das quais não podemos ter consciência por muito que cismamos no que devemos fazer. Quando o jogador que marca o penalty atira para o lado direito porque o guarda-redes se atira quase sempre para o lado esquerdo, não errou. Apesar de ter falhado o penalty porque o guarda-redes se atirou para o lado direito. Nós podemos mandar nos nossos pensamentos, nos nossos desejos, nos nossos sonhos, mas não podemos mandar na realidade.
Dizer que se erra quando apenas se falhou é pretender que a vida seja um sistema matemático que pode ser aprendido mecanicamente para ser depois aplicado. Mas a vida não é assim. Por muito que cismamos sobre um problema, e cismamos bem, a falha é um elemento incontrolável e exterior a esse processo. Uma sociedade de pessoas que erraram só porque falharam não seria uma sociedade verdadeiramente humana. Apesar de falhar ser sempre mau, felizmente temos o direito de falhar e de continuar sempre a correr para apanhar o "Americano" em vez de ficarmos apenas parados a cismar através de um pensativo cigarro. Somos intrinsecamente falíveis. Não que isso dê grande consolo. Mas pode ajudar a dormir melhor.