12 junho, 2013

WILHELM REICH REVISITADO

Pedro Palma

O que nos faz ir um concerto, se vamos ouvir a música que podemos ouvir em casa?
Não podemos, por exemplo, ver um filme sem o ver. Nem sequer Deus, e nisto até Santo Anselmo estaria de acordo. Mas podemos ouvir a música em casa, no carro ou com uns phones, sem ser preciso ver os músicos a tocar. Para quê então darmo-nos ao trabalho de sair de casa, muitas vezes para andar uma tonelada de quilómetros e ainda por cima pagar bilhete para ouvir o que se pode ouvir no recato do lar?
Pode, por isso, parecer um bocadinho estúpido. No meu caso pessoal é mesmo muito estúpido pois no tempo em que eu ia a concertos ouvia primeiro em casa, tipo TPC, para melhor acompanhar o que iria ouvir depois. Pode parecer um bocadinho estúpido mas é humano. E no meu caso, sendo ainda mais estúpido mais humano será. E é humano pois tem que ver com uma certa necessidade gregária de nos presentificarmos. Viver não é apenas ser ou ter. É também estar, incluindo acontecimentos sociais.
Mas uma coisa é estar, e estar para ver o que vamos ouvir, outra é deixar de ver para filmar ou fotografar o que não estamos a ver, sobrepondo uma presentificação virtual ou técnica à presentificação sensorial. Pronto, dizendo isto em linguagem que se entenda, sei lá, é como estar a fotografar os orgasmos da Clara Pinto Correia ao mesmo tempo que se está a contribuir empenhadamente, e presumo que ofegantemente, para a sua eloquente concretização.
A minha filha esteve há dias num concerto no estádio do Dragão e disse-me que se viu atrapalhada para conseguir ver o concerto, uma vez que passou todo o tempo cercada de braços erguidos para fotografar e filmar o que se passava no palco. Ela achou isto bastante irritante. Eu, que sou mais velho do que a minha filha, o que é óbvio até para um tipo como Santo Anselmo, não acho isto irritante. Acho absolutamente irritante.
"Hoje em dia, tudo o que existe, existe para acabar numa fotografia", diz Susan Sontag num dos seus Ensaios sobre Fotografia. Diz, e diz muito bem. E chama a isto de consumismo estético, resultado de uma sociedade industrial que transforma os seus cidadãos em viciados de imagens, "tratando-se da mais irresistível forma de poluição mental". Ora, isto foi dito há 40 anos. Ter sido há tanto tempo não torna esta ideia datada. Porém, o mundo mudou de tal maneira, fazendo com que precise de ser actualizada.
Uma coisa é ir a um concerto pelo prazer do concerto, dos efeitos cénicos do concerto, pelo convívio, pela necessidade de existirem dias especiais que quebrem a rotina diária. A música é o pretexto de todos estes pequenos "textos" que se vão vivendo durante o concerto, satisfazendo a natural necessidade de presentificação de um sujeito que reclama o seu direito a participar fisicamente num mundo real onde as coisas verdadeiramente acontecem. Pacífico.
Outra coisa é estar num concerto e fotografar ou filmar o concerto pela necessidade de mostrarmos e provarmos a nós próprios e aos outros que estivemos lá. Há aqui um certo paradoxo. Por um lado há um exacerbamento do ego, mas, por outro, quanto mais o ego precisa de se exacerbar mais denuncia o seu esvaziamento, a sua invisbilidade. Ouvir ou ver é um acto que pressupõe um sujeito real que ouve e vê, havendo uma distância saudável entre o sujeito que vê e um objecto que é visto. Estamos no mundo e pronto. Mas sobrepor o registo sonoro e visual ao que o sujeito vê e ouve, revela uma ausência cada vez maior de um sujeito, cada vez mais transferido para o mundo das imagens, cada vez mais escondido e dissimulado nesse mundo. Só em aparência ele esteve lá pois quem lá esteve foi um duplo para mostrar que esteve, alienando-se assim de uma relação natural e espontânea com o mundo. A geração FB no seu melhor, estando o futuro cada vez mais próximo.
Clara Pinto Correia seria uma séria candidata a ocupar o célebre orgasmatron do filme de Woody Allen. Ela, e toda uma geração, mais obcecada pelo prazer do prazer do que pelo real prazer de viver num mundo verdadeiro.