15 junho, 2013

VIVIENNE

Heins Hajek-Halke

Eu nunca morei num bairro social. Mas sei como é viver numa aldeia e como vivem aí pessoas que poderiam morar num desses bairros. O suficiente para perceber que, de um modo geral, pessoas de classes mais desfavorecidas produzem mais ruídos do que pessoas de classe média, já para não falar de outras que povoam a estratosfera social. Fala-se mais alto, televisão em altos berros à hora do telejornal, das telenovelas, dos reality shows e dos talk shows, discussões conjugais como se houvesse um altifalante que ligasse a sala ou cozinha a todas as salas e cozinhas do prédio. E o mesmo se passa com a diferença entre um restaurante mais popular e outro cuja clientela seja mais restrita, ou praias mais populares e praias banhadas por "gente bonita", categoria sociológica relativamente recente.
Ou seja, o barulho tem uma identidade social. Isso faz com que a noção de privacidade também seja diferente consoante o tipo de classe. Quanto mais alto se fala ou se grita, quanto mais alta está a televisão ou a aparelhagem, mais facilmente se conhece o que se passa no interior de cada casa ou os hábitos de entretenimento de cada pessoa ou família. Em sentido inverso, quanto mais se sobe na hierarquia social maior é a discrição e o valor da privacidade.
Parece sociologicamente correcto tudo o que acabei de dizer? Sim? Não, esqueça. Nada disto faz actualmente sentido. Hoje, com o Facebook, a classe média coloca fotografias da sua vida privada (jantares, festas, casamentos, baptizados, interiores das casas) que serão vistas por centenas de amigos que não conhecem de lado nenhum; nas revistas cor de rosa, as pessoas escancaram as portas de suas casas ou falam dos filhos, dos casamentos e divórcios ou da sua vida amorosa como se o fizessem com um amigo íntimo no café; com os telemóveis, as pessoas conversam naturalmente sobre questões privadas em locais públicos (eu já assisti a duas brutais discussões conjugais em locais absolutamente públicos); em blogues nos quais a marca privada se sobrepõe a qualquer outro tipo de motivação, ficando nós a conhecer tudo o que tenha que ver com a vida privada, incluindo os filhos, as fotografias dos filhos, as férias, o seu trabalho ou mesmo os seus pessoalíssimos estados de alma, ansiosamente aguardados pelo resto da humanidade.
Vale a pena acompanhar esta entrevista (legendada) de Zygmunt Baumann. Entre várias coisas interessantes, invoca Alain Ehrenberg, sociólogo francês para quem o pós-modernismo começou numa 4ª feira à noite de 1980 quando, num programa de televisão, perante milhões de espectadores, uma mulher chamada Vivienne veio confessar nunca ter tido um orgasmo durante o casamento porque o marido sofria de ejaculação precoce.
Daí eu achar ser possível transformar o simples nome de uma mulher francesa num conceito. Lucy é um nome de mulher mas que ficou para a história como sinónimo de Australopitecus. Seguindo o mesmo critério, Vivienne poderá representar o ser humano do futuro, o ser humano do panóptico, o ser humano que desconhece a fronteira entre o público e o privado, o ser humano que, enquanto indivíduo, como diz Baumann na entrevista, sobrepõe os seus próprios interesses aos políticos e da comunidade em que vive.
E Vivienne somos todos nós, independentemente do sexo, da idade, da classe social, da formação académica. O socialismo pode estar a ser derrotado política e economicamente. Mas graças a Vivienne, ao espírito de Vivienne, às emoções de Vivienne, ao espírito confessional de Vivienne, somos todos, cada vez mais, transparentemente iguais.