01 junho, 2013

TRINDADE

Pierre Houcmant | André Blavier (Le Don de l'Ubiquité), 2007

Passei noites da minha vida a ler Santo Agostinho. Mas isso não bastou para compreender o que pudesse ser a Trindade, esse teorema celeste como alguém sagazmente lhe chamou. E se eu nunca fui bom a Matemática, misturar Matemática e Teologia significou sempre para mim uma superlativa e frustrante experiência do inefável.
Hoje, todavia, agora que roço a límbica espectralidade desta minha digressão pelo mundo, creio ter finalmente conseguido intuir tão complexa dialéctica entre hipóstase e substância, essência e existência, uno e múltiplo, ou entre o mesmo e o outro de que fala Platão no Sofista, esses géneros supremos que ligam superiormente as ideias.
Hoje, dei por mim a ouvir a música certa para ler com o livro certo e comer o chocolate certo. Três perfeições concentradas numa única perfeição. Como se eu fosse três existências concentradas numa só substância ou uma substância dispersa por três existências distintas. Há anos que não ouvia música enquanto lia ou lia enquanto ouvia música, embora sempre comesse chocolate enquanto leio ou sempre comesse chocolate enquanto oiço música. 
Mas quis o acaso que hoje acontecesse ler, ouvir música e comer chocolate. E, de repente, fez-se-me luz. Percebi finalmente a Trindade divina que fala três línguas condensadas numa só, uma Trindade perfeita que tudo concentra. Uma Trindade onde o poder luminoso do verbo surgiu amorosamente num embrulho, não de papel de prata, mas de uma acetinada música etérea a ressoar dentro da alma e com o aveludado chocolate a desfazer-se suavemente no calor da minha boca, metamorfoseando-se na sua saliva como o Verbo em sabedoria.
Agora tenho quase a certeza de que não há mesmo mais metafísica no mundo senão chocolates. E eu percebi que isto era bom. E percebi que isto era bom porque era verdade.