02 junho, 2013

SIMULACROS

Heinrich Kühn [1910]

Na história da fotografia, a linha pictorialista é um bom ponto de partida para pensar nas relações entre a fotografia e a pintura, sendo Heinrich Kühn uma referência de primeira apanha.
Através do autocromo, um processo de coloração das fotografias desenvolvido pelos irmãos Lumière, consegue um resultado esteticamente espantoso, conferindo à fotografia um efeito que a aproxima da pintura. Numa prova cega, iríamos provavelmente olhar para esta fotografia de Kühn como se de uma pintura se tratasse. Uma pintura que estaria no mesmo plano de representação da realidade de um quadro como o de Camille Monet com o filho.  Mas, sendo uma fotografia, os pressupostos mudam radicalmente, valendo a pena explorar a sua diferença e perceber que tão interessante como a histórica perda da pintura para fotografia, como irónica compensação, é a aproximação da fotografia à pintura. Apesar das naturais semelhanças, o modo de representar a realidade é, porém, nos dois casos, diferente, mais concretamente, no modo como se estabelece o jogo entre a realidade e a ficção.
No quadro de Monet vemos a sua mulher com o filho. No entanto, as figuras que ali vemos são apenas um simulacro da mulher e do filho, surgido a partir de uma mistura de óleos. Camille Monet e o seu filho Jean são figuras reais, empíricas, que existem num espaço e num tempo reais, mas que surgem aqui artificialmente, a artificialidade da arte da qual já se queixava Platão, figuras irreais, "figuras de óleo" às quais, no entanto, lhes é atribuído um toque de verosimilhança a fim de poderem ser aceites como figuras reais. Não são, de facto, a mulher e o filho de Monet mas, graças a esse toque, são aceites como tal.
Já no que diz respeito à fotografia de Kühn, o movimento é precisamente o inverso. Sendo uma fotografia, as duas figuras já não são um produto de óleos espalhados numa tela graças à hábil e sensível mão de um pintor. São figuras, estas sim, verdadeiramente empíricas, "tal como elas são", duas figuras humanas que ocupam um determinado espaço real e concreto, num "aqui e agora" que existe independentemente da intervenção dessa câmara que as capta mecânica e passivamente. Mas sendo duas figuras reais (Miss Mary e Lotte), graças a uma peculiar técnica fotográfica adquirem um impressionante efeito de irrealidade, transformando-se em aparentes "figuras de óleo". Ou seja, já não se trata de criar um efeito de verosimilhança mas de inverosimilhança, despojando as duas pessoas da sua verdadeira realidade, sendo precisamente essa irrealidade que confere todo o valor estético a esta fotografia..
Neste sentido, há qualquer coisa de fotográfico na pintura de Monet do mesmo modo que há qualquer coisa de pictórico na fotografia de Kühn. Gosto muito desta ambiguidade, deste jogo entre pintura e fotografia, tentando cada uma delas jogar o jogo da outra.