13 junho, 2013

QUADRATURA EM CÍRCULO

Raphael Guarino

É deveras conhecida a apurada sensibilidade estética de Bryan Ferry. Daí não surpreender a sua resposta nesta entrevista quando lhe perguntam qual foi a coisa mais cara que comprou: "It would be a piece of art. However, you never really own it – you merely curate it for the next generation." Eis uma resposta de quem aprecia uma obra de arte pelo seu valor intrínseco e não como simples mercadoria sujeita às leis da oferta e da procura.
Lembrei-me disto a respeito da autorização de venda para o estrangeiro de um quadro de Crivelli pertencendo a Pais do Amaral, estando na origem deste imbróglio jurídico ou desta polémica política. Eu não sou jurista nem sei pensar juridicamente. Para ser honesto, nem juridicamente nem sem ser juridicamente. Mas parece-me que, neste caso, por muito que isso possa ferir o nosso orgulho patriótico, não vejo razão para questionar a saída do quadro de Portugal. Sobre o imbróglio jurídico nada saberei dizer, presumindo todavia que o anterior proprietário do quadro possa ter razões de queixa. Agora, se o quadro está nas mãos de um particular, esse particular tem todo o direito de o vender, sem a pátria se sentir lesada por causa disso.
Imaginemos que, por graves problemas financeiros, a França decidia vender a Gioconda à Alemanha ou a Itália decidia vender A Primavera a um banco japonês. A Gioconda ou A Primavera não são francesa ou italiana, são património da humanidade e a sua identidade é universal e não nacional. Aliás, muitos dos principais quadros da história da pintura estão no país X ou Y, devido a motivos políticos ou biográficos absolutamente contingentes.
A Gioconda não é francesa, não pertence ao povo francês, não é território francês nem tem que ver com questões de soberania ou identidade francesa. Claro que se entende o possível orgulho ferido dos franceses ao verem a Gioconda sair do seu território, enfim, uma certa mágoa, tristeza e assim. Mas uma coisa é tristeza outra coisa é legitimidade jurídica ou até moral. Imoral, sim, é quando um país ocupante rouba património de um país ocupado, como já aconteceu com a França em Portugal ou com a Alemanha durante a guerra. Ou o modo como países como essa mesma Alemanha e a Inglaterra se apropriaram de tesouros gregos ou egípcios.
Voltando a Brian Ferry, a única condição é zelar pela segurança de uma obra de arte, esteja nas mãos de quem estiver. Nós morremos mas as obras irão ficar para quem vier a seguir.