18 junho, 2013

PRESUNÇÃO E ÁGUA BENTA

Clarence White | Blind Man's Bluff [1898]

Correndo um padre a sua paróquia no sábado santo, dando como é costume a água benta pelas casas, foi parar à oficina de um pintor, onde ao espargir a água por cima de algumas pinturas, o pintor virou-se para ele, um tanto irritado, perguntando porque fazia o espargimento sobre as pinturas. Então o padre disse-lhe que assim era costume, e que era seu dever fazê-lo, e que fazia bem, e que quem faz deve ter esperança em receber bem e melhor, que assim prometia Deus, e que por toda a coisa boa que se fazia na terra se teria lá em cima um cento.
Então o pintor, depois de esperar que ele saísse para a rua, foi à janela e lá do alto lançou um grande balde de água sobre o padre, dizendo:-Eis que de cima te vem por cada cada coisa boa um cento, como disseste que aconteceria, quando me fizeste com a tua água santa que me estragou metade das pinturas. Leonardo da Vinci, Códice Atlântico 119 r.a

Para além de grande pintor, engenheiro, anatomista, cientista, inventor, matemático, arquitecto, Leonardo era dotado de um grande sentido de humor, algum dele com elevado nível de jocosidade. Sendo ele pintor, esta divertida passagem do Códice Atlântico, conservado na Biblioteca Ambrosiana, que mistura  trabalhos técnicos e científicos com reflexões filosóficas e apontamentos pessoais, ganha ainda maior importância.
É um divertido ponto de partida para entender o perigo de quem pretende aproveitar-se de um suposto estatuto de superioridade, muitas vezes magicamente legitimado, para salvar os outros à força. Para aquele padre, água benta é água benta E isso basta para tudo proteger, sendo a sua crença e determinação completamente ridicularizada por aquele que, arrisco dizer, terá sido a figura mais genial de todos os tempos, logo a seguir ao nosso actual ministro das finanças e de mais umas boas dezenas de políticos, economistas, cientistas da educação, enfim, gente de todas as áreas, parte dela perfumada com requintados e afamados PhD's.
Ainda hoje, infelizmente, continua a ser assim. Há quem se agarre a certas fórmulas ou receitas, fanaticamente acreditando que se resultou ali, também haverá de resultar acolá. Se resultou ontem, também resultará amanhã. E se a teoria diz que sim, a prática só essa resposta poderá dar, sem qualquer preocupação em conhecer a textura específica de cada metro quadrado da realidade, seja esta social, cultural, religiosa, histórica, acontecendo, por isso, os maiores desastres.
É verdade que são áreas naturalmente pouco propícias à genialidade e criatividade, muito diferentes, portanto, das de Leonardo. Mas isso não impede a sensatez, o bom senso, alguma sageza. Neste caso, evitando fórmulas salvíficas decoradas nos bancos das universidades, saber olhar para a realidade e depois inventar o menos possível. Como diria o outro, quem só sabe de política, de economia ou de educação, nem de política de economia ou de educação sabe.