30 junho, 2013

PENA MÁXIMA

Tina Modotti

Tina Modotti foi mulher de muitos homens, todos ligados à esquerda revolucionária. Com uma única excepção: o fotógrafo Edward Weston, com quem viveu no México entre 1923 e 1926, e a quem repugnava cada vez mais a violência mexicana. Segundo o biógrafo de Weston, a sua declaração mais política foi ter dito "seria provavelmente um fascista de primeira classe se deixasse levar a melhor o meu desprezo pelas Massas; mas em vez disso tenho pena (uma virtude muito perigosa) tal como a gente sente profundamente a perda dum cão, gato ou criança". Tina, por sua vez, ficou ligada à história da revolução comunista internacional a cuja ala mais estalinista pertenceu, chegando a viver por duas vezes na União Soviética. Numa carta de 1925 a Weston, escreve: "Não posso - como tu propuseste - resolver os problemas da vida mergulhando no problema da arte. [...] Ponho demasiada arte na minha vida...e por consequência fico com pouco para dar à arte".
Torna-se interessante comparar estes dois registos, o do apolítico Weston e o da fortemente engagée Modotti. Claro que Weston enquanto intelectual e fazendo parte de uma elite artística, teria todos os motivos para desprezar as massas pobres, feias e mal cheirosas. Porém, fala de pena, a mesma pena que sente em relação a um animal ou criança.
Esta pena tem uma conotação fortemente cristã. Remete para a experiência cristã da compaixão, da piedade ou da misericórdia. Sim, palavras horríveis e completamente fora de moda. Mas são palavras que remetem para uma moral da proximidade. Não existe compaixão, piedade ou misericórdia face à espécie humana, a uma sociedade ou até a um povo, tudo conceitos abstractos. Tem-se perante o próximo, a fragilidade do próximo, os falhanços do próximo, as limitações do próximo. Claro que isso em nada muda o mundo, nem se fica para a história por causa disso, nem possibilita uma vida de aventuras para contar aos netos.
Claro que ser revolucionário, querer virar o mundo ao contrário, lutando por uma "sociedade justa", "por um mundo melhor", por uma nova "humanidade" é muito mais épico e elevado. Assim como discutir a via estalinista ou trotskista, o menchevismo ou bolchevismo, o modelo soviético, chinês, albanês ou jugoslavo. Faz muito mais sentido ocupar o tempo a lutar pela humanidade inteira do que pelo pobre diabo que está ali descalço à nossa frente. Daí a esquerda revolucionária olhar com desprezo para a caridade, outra palavra tão cristã. A caridadezinha. Talvez por isso, ainda hoje, tanto jovem de esquerda, com roupa revolucionária e cabelo revolucionário, prefere continuar a discutir formas de luta revolucionária pelos bares, enquanto outros, tantos deles reaccionários como Weston, andam pela noite a distribuir alimentos aos sem abrigo. Claro que são gestos que se apagam minutos depois. Mas existiram, aconteceram, marcaram momentos, contribuíram, ainda que atomicamente, para dar alguma felicidade às pessoas. Também o que ficou do estalinismo, do maoísmo, do trotskismo, do modelo X ou Y, para além de milhões de mortos, famílias destruídas, perseguições e prisão, fome, sociedades fechadas? Tanta gente que lutou e morreu por um mundo melhor e o que resta hoje disso a não ser ruínas e algumas páginas nos manuais de história?
Tina Modotti pôs demasiada arte na sua vida para ter tempo para se dedicar à verdadeira arte. Aquilo por que lutou toda a vida, morreu, está enterrado e felizmente bem enterrado. Pena não ter feito mais fotografias. Essas ficam para sempre e para sempre nos darão prazer.