11 junho, 2013

O ESTADO EM RUÍNAS

Toni Frisell

Regresso à Petite Portugaise.
Ter eu dito o que disse sobre máculas originais que adiam eternamente o desenvolvimento real deste país, não pode fazer esquecer o que de muito bom se conseguiu nas últimas décadas, sobretudo ao nível das camadas mais desfavorecidas da população.
Mesmo com pais pobres e sem instrução, esta criança foi à escola e à universidade para ser hoje professora de Português, contrariando o destino dos seus  pais. Isso só foi possível graças a um Estado Social, presumo que primeiro francês e mais tarde português, que permite a todos usufruírem das mesmas oportunidades independentemente da classe social, do nível cultural das famílias, do lugar onde se vive. 
Não é injusto não sermos todos doutores e engenheiros. Aliás, ainda bem que nem toda a gente queira ser doutor e engenheiro, até porque a sociedade precisa cada vez mais de pessoas que não sejam doutores e engenheiros. O que é injusto, sim, é haver pessoas que não o sejam, não porque não o queiram, não por falta de capacidades ou motivação para isso, mas porque o seu país não lhes deu essa oportunidade, colocando-as numa posição desigual face às oportunidades de outros, fazendo com que o filho do desempregado, o filho do operário, o filho de um humilde agricultor não tenha as mesmas oportunidades de outros mais privilegiados. Ser pobre já é deplorável. Ser pobre e ver à sua volta um Estado em ruínas é duplamente deplorável e injusto, pois faz da pobreza não um acidente mas uma condição natural e naturalmente hereditária, não muito diferente de um sistema de castas indiano. 
É este Estado Social que um país que se quer europeu, evoluído e civilizado, não pode deitar para o lixo. Um país para ser respeitado deve começar por aqui. Cemitérios, igrejas, abadias, palácios em ruínas são profundamente românticos em virtude da serena e melancólica nostalgia de vidas que já não existem. Já um Estado em ruínas, de romântico, não tem nada. É nele que nós vivemos e existimos e viver e existir é muito mais do que sobreviver.