21 junho, 2013

MONDAY MONDAY

Ann Mansolino

Não me custa nada admitir dois ou três defeitos. Vá lá, pronto, meia dúzia. Um deles, dou de barato, é a ingenuidade, a qual alguns dissabores já me tem dado. Pronto, nasci ingénuo como Sancho Pança nasceu bronco, e assim hei-de morrer.
Mais uma vez fui ingénuo quando soube que Nuno Crato iria ser ministro da educação. Gostava dele pelo que dizia ou escrevia, achava as suas ideias arejadas e admirava a sua heróica cavalgada contra a estupidez que grassa na escola portuguesa, sobretudo desde Roberto Carneiro. Ouvir o seu nome para ministro foi assim mais ou menos como ouvir anunciar Messi para o Benfica, meio caminho andado para ganhar finalmente a batalha da educação após anos de desvarios experimentalistas.
Eu às vezes leio livros mas não sei muito bem para quê. Não digo isto por achar que tenham na minha cabeça o mesmo efeito que tiveram na de Quixote: secar o cérebro. Ao contrário dos pés, sobretudo no Verão, não sinto o cérebro seco, pelo menos por enquanto. Nem seco nem molhado. É mais nublado: saber que os livros estão lá alojados, porque os li, mas é como se deixasse de os ver, sobretudo quando mais preciso deles para compreender a realidade. Por exemplo, de passagens como esta:

A grande metáfora da renovação, da criação, de uma sociedade justa e racional para o homem, adquiriu a urgência premente de uma possibilidade concreta. O eterno "amanhã" da visão política utópica transformou-se, por assim dizer, na manhã de segunda-feira.

Há anos que estas manhãs de segunda-feira me perseguem. Quando Steiner, se refere a elas em No Castelo do Barba Azul, o contexto é a França revolucionária. Mas dão para tudo. A imagem é perfeita. Durante o fim de semana, sei lá, sábado à noite, sobretudo depois de uns litros de cerveja, é muito fácil sonhar. Sonhar e utopizar é assim um bocadinho como os milagres: subverte as leis da natureza, o princípio da causalidade, as regras da lógica, submete por completo o real ao ideal, sobrepõe o princípio do prazer ao princípio da realidade, deixando a razão completamente à solta, pensando e criticando sem estar sujeita à constrangedora chatice da experiência. Mas o fim de semana chega sempre, e inevitavelmente, ao fim. E na segunda-feira de manhã é preciso estar bem sentado no lugar para tomar decisões.
Esta ideia de matinal segunda-feira é óptima para dar um par de estalos aos embriagados jacobinos do fim de semana para ver se acordam. Mas há sonhos e sonhos e desde José Torres que o verbo sonhar passou a ter outro sentido, embora com os resultados que se viram depois em Saltillo. Sentar na secretária na segunda-feira de manhã não implica ter que desistir de tudo, anular tudo o que se disse, escreveu, pensou. Claro que não se pode governar contra a realidade e a realidade que Nuno Crato iria encontrar não era flor que se cheirasse. Mas já nem era isso que se pedia. Pedia-se apenas uma pequena, por muito discreta que fosse, reminiscência do lúcido e perspicaz crítico do fim de semana, do temerário revolucionário do fim de semana, do escatológico implosor do fim de semana.
Pelo contrário, em vez de fazer implodir o ministério da educação, tal como Descartes fez com a velha escolástica, Nuno Crato foi para lá dormir e ressonar. E se de de vez em quando acorda é apenas para atender monocórdicos telefonemas do ministério das finanças. Isso faz dele um péssimo ministro a precisar, de facto, de umas boas curas de fim de semana. Enfim, de beber, não para pensar e escrever como fazem alguns escritores e poetas malditos, mas  de beber para esquecer.