10 junho, 2013

LE PETIT PORTUGAL


Ficou conhecida como La Petite Portugaise, a criança fotografada por Gérald Bloncourt num bairro de lata parisiense. E, tal como aconteceu com a célebre menina afegã dos olhos azuis da National Geographic, as célebres crianças coladas à mãe fotografadas por Dorothea Lange durante a Grande Depressão, ou a célebre menina, a correr nua, queimada pelo napalm depois de um bombardeamento norte-americano no Vietname, também esta criança foi descoberta, anos mais tarde, já adulta.
Claro que a petite portugaise não se tornou um ícone à escala mundial como as outras crianças, Mas num 10 de Junho só temos mesmo que dar valor ao que é nosso. A petite portugaise é hoje bem portuguesa, vive em Coimbra, onde é professora de Português. Claro que a actual professora de Português, actualmente a viver num apartamento ou numa vivenda em Coimbra, nada tem que ver com a menina a brincar sobre a lama num bairro infecto, com uma boneca tão pobre quanto ela. Tudo mudou. Mas eu olho para aquele sorriso meio tapado por um das suas mãos, enquanto a outra mostra o seu tempo de petite portugaise, e consigo pressentir uma mácula original que jamais a abandonará por muitos anos que ela viva.
Podemos fugir do futuro mas não podemos fugir do passado. É por isso que esta mulher será uma bela representante da sua pátria. Portugal pode ter evoluído imenso nas últimas décadas. Andamos bem vestidos, passeamos por centros comerciais, tiramos a carta de condução aos 18 anos, vivemos rodeados de gadgets, enchemos estádios e festivais de Verão para ouvir música e tantas outras coisas onde sentimos uma verdadeira identidade europeia, rica e emancipada. Mas há sempre uma velha sombra a perseguir-nos, uma sombra cuja grandeza, como no Ivan o Terrível, de Eisenstein, esmaga a figura real e presente.
Como é que diz a canção? Ai esta terra ainda vai cumprir seu ideal/Ainda vai tornar-se um imenso Portugal. Pois, não sei. Talvez graças ao Cristiano Ronaldo e ao Mourinho como outrora ao Eusébio e à Amália. Eles são imensos, lá isso é verdade, os meninos dos nossos olhos, espalhando o grande nome de Portugal por terras de aquém e além mar. Mas não passam de sombras. Sombras grandes, enormes, sombras que enchem uma parede. Mas bem longe de conseguirem esmagar as outras sombras que continuam a esmagar-nos.