07 junho, 2013

IDIOTIA


Dorothea Lange

Cada vez me convenço mais de que somos nós que vamos ter com as ideias e não as ideias que vêm ter connosco. Nós não temos as ideias que temos por serem verdadeiras e não temos as que não temos por serem falsas. Temos as que temos não só porque queremos acreditar que são verdadeiras mas também porque gostamos de acreditar que são verdadeiras. E não temos as que não temos, pela razão inversa, ou seja, queremos acreditar que são falsas e gostamos de acreditar que o sejam. 
O caso desta juíza fez-me lembrar uma entrevista de Jared Diamond, biólogo evolucionista e antropólogo americano, onde diz que um dos seus livros, "Armas, Germes e Aços" em que analisa a história da humanidade nos últimos 13 mil anos, serve precisamente para desmontar o racismo, seu principal inimigo. Questionado sobre o impacto do seu livro na sua luta contra o racismo, disse que foi bastante positivo, explicando que todos os dias recebia e-mails para sobretudo lhe dizerem que o acharam fascinante, nomeadamente de leitores de países africanos, muito satisfeitos por perceberem não ser verdadeira a tese segundo a qual o atraso dos seus países se deva a uma inferioridade genética ou racial dos seus habitantes.
Ele, apesar de cientista, foi ingénuo, por acreditar num impacto positivo do seu livro na luta contra o racismo. Porquê? Porque quem gostou do livro e o elogiou já estava previamente disposto a gostar dele e a elogiá-lo e já sentia repúdio pelo racismo. Por outro lado, quem é racista, irá obviamente rejeitar a tese do livro, seja por um processo ad hominem, seja por acreditar que mais cedo ou mais tarde irá aparecer (ou já apareceu) um cientista mais competente a negar as teses do livro. Em suma, não acredito que o livro tenha mudado alguma consciência. Consigo mesmo imaginar esta juíza sentada no seu superior e branquíssimo jardim a ler o livro. Ela não vai formar as suas ideias a partir do que lê no livro. Ela vai, sim, formar uma leitura do livro a partir das suas ideias.
Para terminar. O que eu estou para aqui a dizer não tem nada que ver com relativismo e epistemologia pós-moderna, defendendo que, em ciência, é possível uma tese e a sua contrária. Eu não estou a falar de ciência mas da relação das pessoas com a ciência. Ou seja, de senso comum. Que, muitas vezes terá mais de comum do que de senso.