19 junho, 2013

HOSPITAL DAS IDEIAS

Ann Mansolino

Ok, pode não ser explícito, consciente e intencional como um cientista no seu laboratório. Mas as nossas vidas são também um permanente processo experimental feito de tentativa e erro. Erramos, estamos sempre a errar, mas a ideia é continuar a aprender com os erros para evitar repeti-los. Claro que, por muito que aprendamos, a vida nunca será uma avenida larga e ampla. Está cheia de esquinas e de cantos e recantos mal iluminados, dos quais vêm surpresas, armadilhas, acasos, contradições, que baralham tudo, obrigando-nos a errar mesmo quando podemos estar a agir bem. Porém, pelo menos em teoria, haverá sempre a ilusão de cada pessoa poder controlar a sua vida, fazendo o que parece mais acertado para que o futuro venha a ser melhor do que o passado.
Mas não são as vidas pessoais que agora me interessam, o que me interessa é aplicar esta ideia à História. Será possível entender a História como um processo de tentativa e erro em que cada povo, na sua época, dá o seu contributo em função de uma meta final? Vendo bem, parece ser isso que se passa, que cada época se esforçou para que as que viessem a seguir pudessem ser melhores e mais evoluídas. Como se fosse assim: vai-se errando, errando, errando, e cada época tenta mais uma vez corrigir os erros das anteriores. O feudalismo falhou? Tente-se então as cidades, o comércio, o dinheiro. O capitalismo está cheio de falhas? Venha o socialismo e os seus ideais igualitários, burocráticos e estatizantes. Aprender, aprender sempre com os erros, fazendo assim com que a História progrida.
Mas não é isso que se passa. Se uma época é melhor do que a anterior não é por causa de um processo de tentativas e erros com vista a um resultado final, mas por razões meramente egoístas. As pessoas lutam pelos seus interesses e não pelos interesses de uma futura abstracção que nem sequer com binóculos conseguem ver, de uma meta futura que as transcenda preocupando-se com outros que jamais virão a conhecer.
Claro que a preocupação com os interesses de cada geração acaba sempre por beneficiar as seguintes. Mas é em nós que pensamos, nos filhos e, já mais vagamente, nos filhos dos nossos filhos. O problema, hoje, é não saber bem o que fazer. Os grandes momentos de mudança na História são feitos de grandes anúncios cheios de néon a acender e a apagar. Estudar História é assim mais ou menos como sobrevoar Las Vegas. O comércio e a vida urbana que enterraram o feudalismo no esterco de uma economia fundiária e cavaleiresca, tinha o perfume fresco da lavanda numa manhã de Primavera. As revoluções são orgiásticos movimentos colectivos virados para um futuro que não quer repetir o passado. O entusiasmo do socialismo está todo ele no grito de Lilya Brik fotografado por Rodchenko, embora a sua ideia não fosse essa.
O grande aborrecimento, hoje, é o aborrecimento de nos querermos libertar do passado do qual não nos queremos libertar. O aborrecimento de sabermos que o que mais queremos é mais de quem esteve antes de nós do que de nós. Deixar de querer matar o pai para o preservar a toda a força, não passando nós de uns meninos de calções cada vez mais cientes de que não temos nada para deixar a não ser o vazio de já não sermos o que fomos mas sem grande esperança no que temos para dar. A este aborrecimento chama-se tédio. Ou, para ser mais fino, spleen. Há quem se compraza nele e até consiga enormes arrebatamentos estéticos. Eu, pelo contrário, acho que as épocas históricas podem ser por vezes como as pessoas: precisarem, urgentemente, de um médico.