25 junho, 2013

HÃ?

Elliot Erwitt | Kitchen Debate

Conheço algumas pessoas cujo gosto a vestir não poderia ser pior. Entrando na mais pirosa de todas as lojas, conseguem ainda escolher a peça de roupa mais pirosa que lá existe. Trata-se de um fenómeno mental que desde jovem me fascina e inquieta. Já tentei várias vezes fazer o seguinte exercício: pôr-me no seu lugar e olhar para aquelas roupas com os seus olhos, tentando senti-las bonitas e como sendo as que eu próprio escolheria para mim. E quem diz roupas, diz a decoração de certas casas. Passar por uma daquelas lojas de decoração do mais piroso que há e tentar olhar para certas mobílias, candeeiros, bibelôs absolutamente pirosos, como se fossem os que eu gostaria de ter em casa.
Mas não consigo. Pronto, não consigo. Com todo o respeito, é como tentar pôr-me na cabeça de um animal. Eu gosto de observar animais, sobretudo os mais inteligentes, por serem os que mais se parecem connosco. Olho para um macaco, um cão ou um gato e tento imaginar o que se estará a passar na sua cabeça. O resultado é sempre desanimador, uma vez que se trata de uma realidade inacessível.
A minha experiência com essas pessoas é exactamente a mesma, apetecendo-me dizer a seu respeito o que diz Wittgenstein nas Investigações Filosóficas: se um leão fosse capaz de falar nós não seríamos capazes de o compreender. Essas pessoas são capazes de falar mas o seu mundo interior é tão inacessível como o de um animal. O que passa dentro da cabeça de uma mulher que numa loja vai precisamente escolher o mais feio e piroso de todos os mais feios vestidos? E na cabeça do homem que numa loja vai precisamente escolher a mais feia de todas as mais feias mobílias de quarto? Não sei, não consigo saber, não faço ideia. É quase como se fosse inumano.
Imaginemos agora que queríamos explicar a uma dessas pessoas, que tem um sentido estético deplorável. Com que palavras e argumentos o faríamos? Como podemos provar àquelas pessoas que o vestido e a mobília são absolutamente pirosos? Ora, o que acontece com isto é também o que acontece quando as pessoas tentam discutir sobre assuntos cuja carga subjectiva é elevada. Por exemplo, para quê discutir política, diferentes filosofias de vida, problemas morais ou ideológicos como se fôssemos sujeitos neutros? As disposições mentais das pessoas são irredutíveis  a bons argumentos ou imaculados raciocínios. Nós não queremos o que queremos porque explicamos. Nós explicamos o que explicamos porque é o que queremos. Fala-se mas não se compreende porque não há nada para compreender. Partilhamos uma mesma linguagem mas isso só vai aumentar ainda mais o poder da ilusão e das aparências.
A partir daqui não há nada para argumentar e explicar. Resta apenas fechar a boca, ir embora e o último a sair que apague a luz. Como diz Hegel no prefácio da Fenomenologia do Espírito: de noite todos os gatos são pardos. De dia também.