24 junho, 2013

DES ANGES QUI PASSENT


Há tempos, numa aula, precisei de explicar como pode a arte ser um meio não só de o artista expressar as suas emoções mas também de provocar emoções. Sendo o romantismo uma boa pista e para evitar que a conversa caísse em saco roto, decidi mostrar a célebre abadia no bosque de carvalhos, pedindo-lhes que sugerissem as emoções do pintor que estariam na origem deste quadro.
Um aluno, e juro que não estava a gozar nem se tratou de uma boutade de adolescente parvo, associou a este quadro sentimentos de felicidade, bem-estar, harmonia. Eu, muito calmamente, sem denunciar a minha perplexidade, pedi para explicar. E lá explicou. Suprema ironia, tudo o que ele disse fazia sentido. A partir desse momento, a minha perplexidade sobre a associação do quadro àqueles sentimento foi anulada pela cada vez mais clara ideia de que as relações entre as pessoas, mais do que baseadas em interpretações, são baseadas em interpretações de interpretações, por sua vez, baseadas em projecções.
Pode parecer uma ideia fria, tendo a consciência de que fazer psicanálise parece muitas vez uma espécie de cardiopneumologia da alma. Porém, também não deixa de ser profundamente romântica. A ideia de que, no fundo, não passamos de espectros cujo rasto é apenas vagamente pressentido pelos outros.