03 junho, 2013

AS CUECAS



Anatomia de um Crime [Otto Preminger,1959] é o clássico filme de tribunal, neste caso apimentado com a música de Duke Ellington, que chega a aparecer no filme a tocar ao lado de James Stewart, no qual assistimos à clássica disputa entre advogados que está na origem de quilómetros de celulóide na história do cinema. Neste filme, trata-se de discutir a condição psicológica de um marido (Ben Gazzara) que assassina o presumível violador da sua insinuantíssima mulher (Lee Remick), muito pouco rogada face ao sexo oposto.
Ora, falar de violação é falar de sexo, falar de sexo é falar de pormenores íntimos, falar de pormenores íntimos é nomear palavras longe da neutralidade de palavras como relógio, janela ou árvore. Durante as sessões nada de especial acontece ao serem ditas palavras como esperma ou ejaculação, ainda que falar de esperma e ejaculação não seja o mesmo que falar dos passarinhos tão engraçados que fazem seus ninhos com mil cuidados. Mas há uma legitimação científica, técnica ou clínica neste tipo de palavras que faz com que, apesar do seu embaraçoso desconforto, acabem por ser aceites, respeitadas e encaradas com naturalidade. 
O problema é quando o juiz percebe que vai ter que se falar das cuecas da menina, elemento relevante na análise do processo, dando origem a um momento cómico de um tão filme dramático como este. O problema do juiz não é analisar tecnicamente a problemática das cuecas. O problema do juiz é como dizer publicamente, num sítio formal como aquele, perante a assistência e o júri, a palavra "cuecas" (panties). A cena é hilariante. O juiz chama até si os três advogados, que deixam os opostos lugares da barricada onde se digladiam asperamente, para lhes perguntar se conhecem outra palavra para "cuecas". Desta vez bem juntinhos, vão então conferenciando de uma forma tão cúmplice e dramática como se estivessem a discutir a vida para além da morte ou a situação financeira de Portugal. Eis o diálogo:

Juiz: Mr. Biegler, you finally got your rape into the case, and I think all the details should now be made clear to the jury. What exactly was the undergarment just referred to?
Paul Biegler: Panties, Your Honor.
Juiz: Do you expect this subject to come up again?
Paul Biegler: Yes, Sir.
Juiz: There's a certain light connotation attached to the word "panties." Can we find another name for them?
Mitch Lodwick: I never heard my wife call 'em anything else.
Juiz: Mr. Biegler?
Paul Biegler: I'm a bachelor, Your Honor.
Juiz: That's a great help. Mr. Dancer?
Claude Dancer: When I was overseas during the war, Your Honor, I learned a French word. I'm afraid that might be slightly suggestive.
Juiz: Most French words are.

Ou seja, chutam todos para canto. O juiz, conformado, conclui que não há safa possível e que terá mesmo que dizer a palavra "cuecas". Mais: avisa toda a assistência que dali para a frente será a palavra "cuecas" que vai ter que ser dita pelos diversos intervenientes. Como explicar esta complexidade, não das cuecas, mas da palavra "cuecas"? O que distingue, para além do óbvio, claro, um par de cuecas de uma camisa ou um par de calças? Nomeadamente no caso desta rapariga que veste de um modo sedutor? Ou seja, uma rapariga cujas calças e camisa não são elementos sexualmente neutros. 
Olha-se para ela e sente-se o seu corpo a espirrar feromonas por todos os poros, ainda que ocultado pelas calças, camisa, sapatos, óculos escuros, tudo o que tapa o seu corpo. Mas se tapa, ao mesmo tempo o exibe. Porém, apesar de um par de calças, uma saia ou uma camisa poderem contribuir para uma superlativa exibição do corpo, funcionando mesmo como sua caixa de ressonância, acabam por se transformar numa segunda pele, num segundo corpo que substitui o corpo propriamente dito. Nós não andamos nus mas vestidos. A roupa é assim o modo como o nosso corpo se expõe socialmente, sendo assim um elemento tão visível que nem damos por ele. Damos por ele, claro, mas como elemento de uma natural visibilidade, como parte de uma racionalidade do visível socialmente instituída. A roupa pode contribuir para realçar as formas do corpo mas será sempre um simulacro desse corpo num subtil jogo de exibição/dissimulação. 
O que se passa então com as cuecas? As cuecas são uma peça de roupa obrigatória. Há quem use mais calças, há quem use mais saias, há quem use mais camisas, há quem use mais blusas. Mas toda a gente usa cuecas, sendo por isso a mais consensual e pacífica de todas as peças de vestuário. Acontece que, ao contrário de umas calças ou camisa, as cuecas não fazem parte de uma ordem visível. Daí a vergonha em sermos visto de cuecas, contrariamente ao que se passa, no caso de uma mulher, com a parte de baixo de um bikini. As cuecas fazem parte, portanto, de um nível associal do qual não consta qualquer semiótica. Nós podemos construir a nossa identidade através do tipo de calças, camisas, casacos que vestimos ou calçado que temos nos pés. Mas as cuecas estão fora dessa identidade, confundindo-se subterraneamente com uma parte do corpo que também está fora dessa ordem. Toda a gente sabe que toda a gente tem um pénis ou uma vagina. Nós somos sexuados e isso é tão evidente como uma lei da física. Mas, sendo sexuados, somos também educados para sublimar esse estado sexuado, tal como o fazemos através da roupa, graças à qual é possível expor essa sexualidade latente mas, cá está, dissimuladamente. As cuecas, pelo contrário, obrigam-nos a uma confrontação directa e sem dissimulações com a nossa sexualidade pura e dura. Por isso, para o juiz, falar em cuecas significa falar de uma parte do corpo da vítima, não do modo científico e moralmente asséptico como se pode falar de vagina, esperma ou ejaculação, mas transgredindo as convenções sociais que obrigam a ignorar ou esquecer essa peça de roupa para, por sua vez, ignorar ou esquecer essa parte do corpo humano irredutível às diversas formas de visibilidade social.
Falar de cuecas é, metonimicamente, falar de sexo, lembrar que aquela pessoa tem sexo e, deste modo, pisarmos território minado. Desde que Adão e Eva foram expulsos do paraíso que temos a consciência de que não somos anjos sem sexo. Podemos falar da estupidez ou da maldade de uma pessoa como se isso fosse a coisa mais natural do mundo. Porém, lembrar que tem sexo, ainda que através de uma simples peça de vestuário, é uma dificuldade social com a qual continuamos a ter que lidar.