28 junho, 2013

ANIMAÇÃO MUSICAL

Blanc et Demilly | Movimentos

Eu sou um daqueles fanáticos incapazes de ler um livro, incluindo romances, sem um lápis na mão. Se gostar dele nunca o dou por concluído, nem que seja por pormenores aparentemente insignificantes que faço questão de não perder nos calabouços do esquecimento.
Há dias calhou voltar à Sonata de Kreutzer, romance no qual um homem, durante uma viagem de comboio, conta aos companheiros de carruagem o processo que, motivado pelo ciúme, o levou a assassinar a mulher. Acontece que a sua perturbação psicológica teve um fundo musical, fortemente impactada ao ouvir a Sonata Kreutzer para violino e piano, tocada pela mulher e pelo suposto amante para diversos convidados. Não apenas por estarem a tocar juntos mas também como se a música se tivesse transformado num espírito maligno viralmente instalado no lado mais obscuro da sua alma. 
Entretanto, no Guardian de hoje vem este artigo, que por sua vez remete para este. Ambos abordam a ligação entre a música e a pintura a propósito desta exposição na National Gallery, tendo a música como tema central, associada a uma experiência da sedução e da sensualidade. Pronto, o que tem que ser tem muita força e lá volto eu mais uma vez aos diferentes impactos psicológicos destas duas diferentes artes.
Não digo que não possa acontecer, mas muito dificilmente se fica com pele de galinha perante um quadro. Ou muito dificilmente se chora, ou se fica exuberante ou se mexe o corpo perante um quadro. Ver é ver um objecto exterior ao sujeito que vê, é sempre um processo contemplativo. Por muito envolvidos que estejamos com um quadro, será sempre um objecto exterior que nunca a chega a ser completamente absorvido pelo sujeito tal como a comida é absorvida pelo organismo.
A música é completamente diferente. A auditiva relação que temos com os sons é mais física e neurologicamente mais imediata do que a que temos com as imagens. Daí haver sons estridentes que somos incapazes de ouvir ou termos que baixar o som se estiver muito alto, ou perturbar-nos se precisarmos de fazer certas coisas para as quais temos que nos concentrar. Daí também as emoções no cinema. Sem música ninguém sentiria medo ou comoção num filme. Ver um filme de terror ou uma história dramática sem música tira-lhe todo o impacto emocional. Num filme, o que faz chorar não são as imagens mas a música sob as imagens e que afecta o nosso sistema nervoso.
Faz por isso todo o sentido o §106 de Para Além do Bem e do Mal, onde Nietszche diz que "Devido à música, as próprias paixões podem fruir de si mesmas". Ou seja, sem filtros, sem distância de si a si, sem mediação, sem contemplação. A música penetra directamente nos circuitos emocionais do sujeito, permitindo desse modo a um sentimento como a paixão ser expresso directamente e não metaforicamente, metonimicamente ou qualquer outro processo indirecto.
Ora, o que acontece com as "pinturas musicais" de Vermeer? Há, de facto, sedução, e, tal como diz Richard Egarr no segundo artigo, as pinturas de Vermeer, como as melhores fotografias, convidam-nos a pensar no que aconteceu antes e no que poderá vir a acontecer depois. E é enquanto espectadores que pensamos no que vemos mas sem sentirmos o que vemos. Ouvir música, pelo contrário, é como se assistíssemos em "directo e ao vivo" às nossas emoções a partir do momento em que é absorvida pelo sistema nervoso.

- Estavam a tocar a Sonata de Kreutzer, de Beethoven. Conhece o primeiro presto? Conhece? - exclamou. - Ooh!...Esta sonata é uma coisa terrível. Precisamente esta parte. E a música em geral. O que é isso? Não compreendo. O que é a música? O que é que ela nos faz? E por que é que faz o que faz? Dizem que a música provoca um efeito sublime na alma...Mentira, absurdo! Provoca um efeito, um efeito terrível mas não sublime. Não age na alma de um modo sublime nem humilhante, mas de modo excitante. Como lhe hei-de explicar? A música faz-me esquecer de mim próprio, da minha verdadeira situação, transporta-me para outro espaço qualquer que não é o meu: a música parece que me faz sentir o que na verdade não sinto, que me faz compreender o que não compreendo, parece que, com a música, posso fazer o que na verdade não posso.
[...]
A música transfere-me de imediato para o estado de espírito do músico quando a compôs. Fundo-me na alma dele e, juntamente com ele, transporto-me de um estado para o outro, mas não sei por que o faço. O homem que compôs, digamos, esta Sonata de Kreutzer, Beethoven, sabia o porquê desse seu estado, um estado que o levou a praticar determinados actos, logo um estado que tinha sentido para ele mas que, para mim, não tem qualquer sentido. Por isso, a música apenas excita, mas não determina. Bom, se tocam uma marcha militar, os soldados marcham, a música aqui, determina alguma coisa; se tocam uma dança, dançamos, e tudo está definido; cantam uma missa, comungamos, também está definido. Mas aqui apenas há excitação, e não se torna claro o que devemos fazer neste estado de excitação. Por isso a música é tão assustadora, por isso causa tantas vezes um efeito pavoroso. Na China a música é uma prerrogativa do Estado. E tem de ser assim. Pode admitir-se que alguém hipnotize quem lhe apeteça, uma ou duas pessoas e depois faça com elas o que quiser? Sendo o hipnotizador, ocasionalmente, um homem imoral?
Pois bem, este meio terrível cai nas mãos de qualquer um. Por exemplo, esta Sonata de Kreutzer, o primeiro presto. Será admissível tocar este presto num salão, no meio de senhoras decotadas? Ouvem, depois batem palmas, depois comem gelados e falam de um novo boato qualquer. Estas coisas apenas devem ser tocadas em circunstâncias importantes, significativas e quando é necessário realizar determinadas acções importantes que correspondam a esta música. [...] A mim, pelo menos, esta peça influenciou-me terrivelmente; parecia que se me revelavam sentimentos e possibilidades absolutamente novos, desconhecidos para mim até àquele momento. Parecia que a minha alma me falava: isto é assim, não é como pensaste e viveste antes. Não sabia que a coisa nova me era dada a conhecer, mas a consciência do novo estado era muito feliz. As mesmas pessoas, incluindo ele e ela, eram-me reveladas a uma luz muito diferente.

Cá está, ele e ela. O mesmo ele e ela que surgem nos quadros de Vermeer transportados para um aristocrático salão russo do século XIX. Nas pinturas nós vêmo-los a tocar mas não ouvimos o que tocam. Só que ver é ver, ouvir é ouvir. Ouvir música, não como ouvem as senhoras decotadas que depois vão comer gelados ou os senhores com binóculos na ópera. É pôr a alma aos saltos e em sobressalto, explorando o que dela própria não sabíamos. Muito longe, portanto, da tranquilidade apolínea dos quadros de Vermeer, muito longe também dos saltos e sobressaltos das personagens musicais dos quadros de Vermeer, cujos corpos se apresentam tão quietos como naturezas mortas mas cujas almas dançam com toda a força dos seus músculos.