26 junho, 2013

AMOR DE PERDIÇÃO

                                                         Anton Josef Trcka | Retrato de Mulher

-Amo Julien? - perguntou por fim a si própria. [Aurais-je de l'amour pour Julien? se dit-elle enfin.]

Quem faz a pergunta a si própria é a senhora de Rênal, no romance O Vermelho e o Negro, escrito por um senhor chamado Henri-Marie Bayle, mais conhecido por Stendhal. E Julien, é Julien Sorel, o jovem humilde, mas proficuamente letrado, contratado pelo senhor de Rênal para preceptor dos seus filhos. A senhora de Rênal, casada com o senhor de Rênal, é uma mulher de 30 anos, destinada aos deveres matrimoniais e maternais.

Era uma alma inocente que nunca se atrevera a julgar seu marido e a confessar que ele a aborrecia. Supunha, sem o dizer a si própria, que entre marido e mulher não havia mais doces relações. Amava o senhor de Rênal, sobretudo quando ele fazia projectos a respeito dos filhos, que destinava um à vida militar, o segundo à magistratura e o terceiro à Igreja. Em suma, achava o marido menos aborrecido que qualquer dos outros homens que conhecia.

Mais à frente, noutro capítulo, continua o escritor a respeito da senhora de Rênal:

A senhora de Rênal, rica herdeira de uma tia devota, casada há dezasseis anos com um bom fidalgo, nunca na sua vida sentira nem vira nada que fosse sequer vagamente parecido com o amor. Fora apenas o seu confessor, o bom do cura Chélan, que lhe falara de amor, a propósito das perseguições do senhor Valenod, e tinha-lhe pintado uma imagem tão desagradável que essa palavra só representava para ela a libertinagem mais abjecta. Considerava uma excepção ou, mesmo, uma coisa fora da natureza o amor tal como o encontrara no pequeno número de romances que o acaso pusera debaixo dos seus olhos. Graças a esta ignorância, a senhora de Rênal, perfeitamente feliz, pensando continuamente em Julien, estava longe de fazer a si própria a mais pequena censura.

Pronto, estando apresentada a senhora de Rênal, voltemos então à interrogação inicial: -Amo Julien - perguntou por fim a si própria? 

A mulher que faz a pergunta nunca a tinha a colocado antes em toda a sua vida. Educada para uma visão perfunctória do casamento, tinha, até ter conhecido o jovem Julien, uma vida tranquila, vivendo feliz com a identidade realizada de poder ser quem é. E completamente alheada do amor romântico como credo amoroso dominante. Amava o marido mas sem saber o que era o amor.
Vistas as coisas desta maneira, seremos tentados a escutar a famosa ideia de La Rochefoucauld, segundo a qual se as pessoas nunca tivessem ouvido falar de amor jamais se apaixonariam. Isto, claro, até aparecer Julien Sorel. O jovem perceptor muda tudo. Mas a frase do moralista francês continua a fazer-se escutar, embora já com outro e completamente distinto pressuposto: o barroco sermão do cura Chélan.
O que se torna verdadeiramente admirável é a lógica perversa da chegada ao amor da senhora de Rênal, através dos braços de Julien. Ouviu falar de amor mas ouviu falar dele como qualquer coisa de libertino, abjecto, profundamente desagradável. Ou seja, ao contrário da sua sereníssima e feminina ideia de casamento, ela tem a consciência de que o amor pode ser causa de tempestades, ruína, destruição psicológica e física, tendo mudado, de facto, e radicalmente, a sua vida. Como explicar então a sua perdição?
Para perceber, perceber mesmo bem os seus passos rumo ao abismo, deverei recorrer a um dos mais célebres inícios da história da literatura: todas as famílias felizes são iguais, as infelizes são-no cada uma à sua maneira. Antes de se apaixonar por Julien, a senhora de Rênal era feliz pois era infeliz sem o saber. Ao apaixonar-se por Julien já sabia ao que ia: à procura de si própria. À procura da sua infelicidade para poder ser ela própria.