09 junho, 2013

A MÁQUINA DE COSTURA

Ann Mansolino

Uma amiga, ainda muito jovem, contou-me que esteve em casa da avó a aprender a trabalhar com a máquina de costura, uma daquelas mesmo antigas ainda com roda e pedal. Claro que pessoalmente simpatizei com a ideia, aliás, na sequência do que já tinha dito aqui. Mas o que verdadeiramente me ficou debaixo de olho foi ter-me dito que, ao estar a ensiná-la, "a avó parecia de novo uma jovem, uma rainha no seu reino".
Nós ficamos velhos de duas maneiras diferentes. Ficamos velhos porque o corpo nos diz que estamos velhos. Mas ficamos igualmente velhos à medida que vamos percebendo que o nosso mundo é cada vez menos nosso mas de outros que vêm depois de nós. Sempre assim foi e sempre assim será. Há um momento na vida em que o mundo dos mais novos e o dos mais velhos ainda pode relativamente coincidir. Mas há um dramático e implacável momento em que, como nas Três Idades do Homem, de Ticiano (1511), o afastamento face ao húmus da vida e da existência, vai sendo cada vez maior, até  nos apagarmos definitivamente num afastado ponto no horizonte.
O que aconteceu com esta avó foi, por um momento, este processo ter sido invertido. Não de um modo artificial e patético como acontece quando se infantilizam os velhinhos mas de um modo naturalmente digno. Uma rainha no seu reino? Não, não se trata de uma Norma Desmond a descer as escadas rodeada de fotógrafos ou, altiva e majestática, a dizer I'm ready for my close up, Mr De Mille.  Neste caso, não se tratou de uma encenação delirante, mas de uma verdadeira ressurreição, ainda que fugaz como a espuma de uma onda que morre na areia. A máquina de costura pode ter estado sempre em actividade mas isso não anulava o carácter fantasmagórico ou onírico de uma máquina em actividade num tempo que já é um tempo histórico, um tempo alienado de si próprio. A ressurreição está no facto de a avó e a máquina de costura terem deixado de ser uma única peça de museu para passarmos a ter uma professora cuja lição é tão útil e legítima como a lição de uma professora de Informática.
Um momento mágico que, apesar de fugaz e de não alterar a ofegante e implacável respiração da história, irá sobreviver sempre que as mãos da neta se prepararem para costurar.