14 maio, 2013

XAROPE PARA A FELICIDADE

Jane Bown

Soube de uma oficina de expressão dramática/teatro, destinada a crianças entre os 6 e os 12 anos. Até aqui tudo bem, acho a ideia gira. Mas o texto de apresentação é verdadeiramente assustador:

Esta oficina visa melhorar o nosso mundo de amanhã a partir dos mundos das nossas crianças de hoje.
Com esta oficina, pretende-se construir e desenvolver um espaço e um tempo em que cada criança possa explorar, criar e reinventar tudo o que constitui o mundo dentro e fora de si, para o conhecer melhor e dele melhor (usu)fruir.
A expressão dramática e o teatro serão ferramentas excepcionais neste processo. Através delas, as crianças adquirem maior sensibilidade pessoal, social e artística, melhor capacidade de comunicação e reflexão, abrindo assim caminhos que lhes permitirão tornar-se, no futuro, seres mais estruturados intelectual e emocionalmente, numa palavra, cada vez mais humanos, cada vez mais felizes.

Eis bem expressa a ideia de que a felicidade pode ser conquistada cientificamente, tecnicamente, graças a um conjunto de causas que conduzem mecanicamente a determinados efeitos. Eu acabo de ler isto e sou logo transportado para o século XVIII francês, para o século XIX positivista, para o século XX soviético, a leste, ou behaviorista, a ocidente. Como é possível continuar ainda a acreditar nesta mecânica da felicidade, como se a inteligência e a criatividade contribuíssem alguma coisa para nos tornarmos melhores, mais humanos e felizes?
O teatro e o cinema estão cheios de gente sacana e ordinária. Há montes de pintores, escultores, arquitectos, escritores, poetas sacanas e ordinários. Gente do piorio. Eu não estou a dizer que o são por serem actores, escritores ou pintores mas tão somente que ser actor, escritor ou pintor não é condição para se ser melhor nem pior pessoa.
Depois, a felicidade. Mas alguém é mais feliz por ser actor, pintor ou escritor, por ser criativo e ter muita imaginação? A história está cheia de gente inteligente, genial e criativa que se suicidou, que vive a anti-depressivos, que sofre de enormes angústias existenciais, de solidão existencial. Muitas vezes precisamente por serem mais inteligentes e criativos, vendo mais longe do que todos os outros e, por isso, vendo pior. O mundo está cheio de mecânicos de automóveis, agricultores, empregados de escritório e vendedores de Moulinex infinitamente mais bem dispostos e felizes, gente que nunca viu uma peça de Ionesco, que nunca leu Harold Pinter, nem faz a menor ideia de quem possa ser o Will Self.
Mas como se não bastasse o texto da apresentação, ainda temos uma lista com os principais (principais, ou seja, haverá ainda outros) objectivos da oficina. Respire fundo e prepare-se para o que vem a seguir.

     Estimular a consciência de si e do outro
     Estimular as relações interpessoais
     Incentivar a auto-estima, auto-valorização e confiança em si e no outro
    Educar para os valores da partilha, do respeito, da atenção para com o outro e da aceitação da diferença
     Fomentar a compreensão do mundo e do quotidiano da criança
     Desenvolver a capacidade de expressar, com autonomia, uma visão crítica do mundo
     Favorecer o pensamento crítico
     Potenciar um desenvolvimento emocional positivo, saudável e equilibrado
     Fomentar a cooperação na criatividade colectiva
     Potenciar a actividade espontânea da criança
     Estimular a capacidade de construção e criação artística sozinho e/ou em grupo
     Adquirir a consciência do corpo
     Desenvolver a expressão corporal como meio de comunicação
     Adquirir e desenvolver capacidades no domínio da expressão vocal, gestual e corporal
     Compreender jogos de comunicação verbal e não verbal
     Desenvolver a capacidade de expressão e comunicação verbal e não-verbal
    Contribuir para a apreciação criativa das possibilidades de utilização do corpo e da voz
    Estimular a imaginação, a criatividade e a capacidade de exploração de recursos (ser capaz de criar personagens, histórias ou jogos de imaginação)
    Desenvolver a capacidade de improviso
    Trabalhar a concentração e a capacidade de escuta
    Desenvolver o jogo simbólico
   Explorar a dimensão da palavra na sua vertente escrita, lida, falada e cantada
   Fomentar a capacidade de memorização
   Estimular a capacidade de observação
  Contribuir para o desenvolvimento de variadas capacidades cognitivas, estéticas e técnicas
  Promover o desenvolvimento global da criança (emocional, mental, social e artístico)

Parabéns, conseguiu chegar ao fim. É porque deve ser professor, habituado a estas listas incontinentes para justificar qualquer merdice que se faça. Eu poderia discutir, um a um, o interesse, a pertinência, a vantagem, a eficácia de montes destes objectivos. Acho apenas que seria mais verdadeiro e honesto explicar aos pais das criancinhas que esta oficina vale a pena só porque é giro, divertido e mais saudável do que passar os sábados fechado em casa a ver televisão ou a jogar PS. Mas, sim, é verdade, é pouco científico e não tem ar de ter sido pensado por psicólogos, pedagogos, psicopedagogos, pedopsiquiatras ou professores com formação na área das ciências da educação. Graças a estes, porém, seremos salvos e vamos ser todos muito felizes.