29 maio, 2013

VIOLAÇÃO DOS DEVERES UMMANOS

Hermann Carl Eduard Biewend | 1846

Vale a pena parar um bocadinho nesta notícia. O facto de se tratar de duas mulheres muçulmanas talvez ajude a entender melhor a legitimidade do casamento entre pessoas do mesmo sexo, uma vez que, projectivamente, conseguimos compreender a importância deste acto na vida de duas pessoas que fazem parte de uma cultura na qual, de acordo com os nossos padrões morais e políticos, a liberdade individual é escandalosamente sacrificada.
As sociedades islâmicas são profundamente totémicas, com um fortíssimo sentido de comunidade (umma) que limita sobramaneira a liberdade de movimentos do indivíduo. A liberdade negativa (no sentido em que foi formulada por Benjamin Constant e Isaiah Berlin, isto é, a liberdade de agir sem qualquer tipo de interferências externas), deixa muito a desejar nessas sociedades, uma vez que a umma age sobre o indivíduo como uma espécie de pai tirano que o autoriza ou não a fazer certas escolhas pessoais em função de critérios bastante rígidos.
Nas nossas sociedades liberais, pelo contrário, os indivíduos foram conquistando cada vez mais o direito de viverem as suas vidas de acordo com valores e projectos de vida pessoais. Claro que existem virtudes cívicas e valores consensualmente aceites. Mas conseguimos, com assinalável sucesso, compreender e respeitar o que só a cada um diz respeito. A homossexualidade é disso um bom exemplo. Com o tempo, fomos aprendendo que, de um ponto de vista social, profissional, intelectual e moral, é indiferente ser ou não homossexual, e que o que cada um faz na sua cama só a si diz respeito. John Locke deu um contributo enorme com a sua noção de coisa indiferente a qual, embora usada para defender a tolerância religiosa e aceitar que cada um acredite no deus que bem entender, acaba por ser também a noção certa para promover a liberdade individual. Se matar ou roubar não são actos moralmente indiferentes, já o modo como cada um vive a sua sexualidade, com quem vive, e como pretende formalizar civilmente essa sexualidade, deverá ser absolutamente indiferente para a comunidade em que estamos inseridos.
Esta notícia é apenas mais uma, entre tantas outras, onde damos conta do modo como a liberdade dos muçulmanos é coarctada, impedidos de organizar as suas vidas pessoais pelo poder totémico da comunidade. Claro que, enquanto ocidentais, a nossa solidariedade perante estas pessoas oprimidas é imediata e espontânea, pois faz-nos sentir na pele o sacrifício da autonomia pessoal e  o poder abusivo de uma felicidade e normalidade impostas, revelando uma luta pela liberdade que tanto prezamos nas nossas vidas. Mas como estamos há muito habituados a considerar essa liberdade e autonomia um valor sagrado e inalienável nas nossas sociedades, nem sempre reparamos como por vezes falhamos no respeito por elas. Daí este caso obrigar-nos a confrontar com as nossas próprias limitações e com o facto de a luta pela liberdade pessoal e o direito de cada um à felicidade ser um processo nunca acabado.