12 maio, 2013

SALTAR À FOGUEIRA


Deus me livre de querer defender a censura seja lá do que for. É verdade que coisas como a democracia e a liberdade de imprensa me deixam menos excitado do que um bom gelado de baunilha e noz de macadâmia, mas longe de mim impedir a publicação do que vai nas cabeças das pessoas. Pronto, isto é o meu lado bonzinho a falar, o meu lado de cidadão respeitador de certos princípios filosóficos e constitucionais politicamente correctos.
Mas o Jekyll que há em mim também tem estados de alma dos quais não consegue fugir. E são precisamente essas emanações do lado mais cavernoso e obscuro do meu ser que me levam a pensar, sempre que entro numa livraria, que seria social, cultural e intelectualmente saudável e higiénico parar com a publicação de ficção durante pelo menos uns 10 anos.
Se há pessoas que sentem um incontrolável impulso para escrever como se padecessem de uma espécie de doença de Parkinson literária, acho muito bem que escrevam. A doença ainda não deve estar reconhecida mas acho bem que se apoiem esses doentes. Eu só não percebo é por que razão, em vez de guardarem na gaveta o que escrevem ou de mostrarem apenas a familiares, amigos e vizinhos, desejam publicar o que escrevem. Como se o mundo não tivesse já livros que cheguem, como se o mundo precisasse do que escrevem, como se o mundo estivesse ansioso à espera desses livros, como se o mundo perdesse alguma coisa se esses livros não fossem publicados. 
Há obras-primas da literatura, há bons livros, há livros razoáveis e há livros medíocres. Muito bem, nem toda a gente consegue ser genial. Mas por que razão se há-de publicar mais um livro e mais outro e mais outro e mais outro livro medíocre ou apenas razoável? E isto, quando já há milhares de livros igualmente razoáveis por ler, muitos deles de autores consagrados. Por que se há-de querer impor mais um livro ao mundo quando este mundo já está saturado de livros medíocres ou razoáveis ainda por ler? A não ser que quem publica tenha a veleidade de pensar que o seu livro é um bom livro ou uma obra-prima da literatura. Mas também se houver quem pense assim é porque, enquanto leitor, nem sequer faz ideia do que possa ser um bom livro ou uma obra-prima.
Provavelmente a chave para perceber tanto livro medíocre que empesta actualmente as livrarias está precisamente aí: no leitor. Leitores medíocres pedem livros medíocres escritos por escritores medíocres. E com isto volto ao que disse no início. Nada tenho contra a publicação de livros medíocres, não quero nada com censuras seja lá do que for. Mas também sou humano e sei bem o que me apetece fazer sempre que entro numa livraria.