31 maio, 2013

QUEM VÊ CARAS VÊ CORAÇÕES

André Gelpke


O NÚMERO DE TELEFONE DA ROSA É O 2493O2OO8

Nesta frase, o signo que surge sublinhado é interpretado de dois modos completamente diferentes conforme o contexto em que se insere. Os olhos vêem sempre o mesmo signo, porém, no cérebro, as coisas passam-se de maneira completamente diferente. Numas partes lemos a "letra O" enquanto noutra partes lemos o "número O". Isto acontece pela simples razão de que olhar é passivo mas interpretar o que se vê já é activo. Neste caso, a nossa mente percebe a existência de duas diferentes estruturas ou totalidades, dando-lhes assim diferentes sentidos. "ROSA" é uma totalidade que nos obriga a ver letras, "249302008" uma outra totalidade que nos obriga a ver números. E só um tresloucado com uma grave disfunção neurológica trocaria os dois sentidos uma vez que não existe aqui qualquer migalha de dúvida ou incerteza pois trata-se de totalidades que existem fora de nós. Tal como um carro, uma mesa ou uma casa são totalidades que existem fora de nós e que nos obrigam a ver objectivamente um carro, uma mesa ou uma casa.

Mas a seguinte figura já é mais complexa




Numa coisa é igual à frase anterior: todos os olhos que observam esta imagem vêem exactamente a mesma coisa. A imagem é esta e mais nenhuma e é para ela que todos os olhares se dirigem. Mas enquanto uns vêem uma jovem, outros vêem uma velha. Há mesmo quem não consiga ver a jovem ou quem não consiga ver a velha. E a razão é precisamente a mesma: o modo como o cérebro percebe uma totalidade, sendo essa totalidade que dá um sentido a cada uma das partes. Só que neste caso, contrariamente ao que se passa com uma palavra, um número de telefone, um carro, uma mesa ou uma casa, a imagem é ambígua. E sendo ambígua permite duas formas diferentes de organizar a imagem, duas totalidades que lhe conferem dois sentidos: uma jovem ou uma velha. Na primeira frase não somos livres de criar um sentido. Na imagem seguinte não somos completamente livres de criar um sentido (ninguém é livre de ver nela uma baliza de futebol ou uma árvore) mas somos muito mais livres no processo de interpretação graças a certos truques  (objectivos) que permitem ao nosso cérebro construir livremente uma jovem ou uma velha. A imagem não engana o cérebro. A imagem obriga, sim, o cérebro a ser dinâmico e imprevisível no modo como vai interpretá-la.
Ora mais complexo ainda é o que se passa perante factos sociais, políticos, económicos ou morais. Também aqui os factos são o que são. Um empresário que possui vários carros de luxo, uma casa de luxo, uma vida de luxo, pagando miseravelmente aos seus trabalhadores, é o que é e objectivamente:  um empresário que possui vários carros de luxo, uma casa de luxo, uma vida de luxo, pagando miseravelmente aos seus trabalhadores. Ou pegando no exemplo do meu post anterior, um casamento entre duas pessoas do mesmo sexo é objectivamente um casamento entre duas pessoas do mesmo sexo.
Porém, também aqui existem estruturas ou totalidades que condicionam a nossa interpretação destes factos. Só que ao contrário das palavras, dos números, dos carros, das mesas ou das casas que existem objectivamente fora de nós, neste caso, são totalidades morais, religiosas, ideológicas, culturais que serão determinantes no modo como olhamos e interpretamos a realidade. Daí o que pode ser normal e legítimo para uns, possa ser chocante e imoral para outros. As ideologias constroem-se como rígidas totalidades marcadas por uma coerência interna e, a partir daqui, deixa de haver factos puros mas apenas interpretações e interpretações de interpretações. Por isso, onde há seres humanos haverá sempre conflitos de interpretações e conflitos que serão sempre insolúveis. Haverá sempre quem só veja a jovem, haverá sempre quem só veja a velha. Há muito que é assim e assim continuará a ser.