27 maio, 2013

O BALOIÇO

André Kértesz

Não é disparate nenhum dizer que o Benfica fez uma época brilhante. Na última jornada, ainda estava a disputar a conquista do campeonato; foi a uma final europeia na qual enfrentou com pundonor o ainda campeão europeu; chegou à final da taça de Portugal. O Porto foi campeão nacional mas foi prematuramente eliminado na competição europeia e na taça de Portugal. O Vitória ganhou a taça de Portugal mas ficou num modesto 9º lugar no campeonato. O Benfica, pelo contrário, chegou o mais longe que poderia ter chegado nas três competições. Quantas equipas por essa Europa fora se podem gabar de uma época tão brilhante? Porém, como despedida de tão brilhante época, o que se viu foi isto, ou lamentações como esta. Tristeza, desespero, frustração, angústia, revolta, as barbearias de Portugal transformadas em consultórios psiquiátricos.
A explicação é simples. No desporto, todo o processo, por muito longo e complexo que seja, é visto em função de um Grande Final. E é esse Final que conta, é ele que fica para a história, exilando para os confins do esquecimento tudo o que aconteceu de bom ou brilhante antes dele.
Na vida, porém, as coisas não têm que ser assim e vê mal quem as vê assim. A vida não é um processo em que estando todos numa posição inicial de igualdade, só alguns atingem os lugares cimeiros. Muitas vezes fazem-nos acreditar que a felicidade depende de atingir certas metas. Que quem as atinge é feliz, tão feliz como o Porto, o Chelsea ou o Vitória ficaram este ano, e quem não as atinge não pode ser feliz, como não pôde ficar o Benfica. Só que enquanto no desporto existe apenas uma meta para todos, na vida, pelo contrário, cada pessoa deve ser capaz de construir as suas próprias metas, baseadas nos seus próprios valores, gostos, projectos de vida, e viver em função delas. Há muitas pessoas que se consideram infelizes, não porque verdadeiramente o sejam mas porque lhes fizeram acreditar que apenas seriam felizes se atingissem certas metas. Metas que lhes são impostas e obrigando-as a viver em função delas.
É por isso que eu gosto da imagem do baloiço para definir a vida. Viver, no fundo, não serve para nada. Eu sei que é chato dizer isto mas é verdade. Quando digo que não serve para nada, não estou a propor darmos um tiro na cabeça ou passarmos os serões a ver telenovelas. Mas vivemos para quê? Vivemos para chegar a uma meta chamada morte, esta, sim, uma meta igual para todos, independentemente do que fizemos ou fomos antes dela. Por isso, mais do que querer chegar a uma meta socialmente imposta, devemos antes, ao contrário de uma competição desportiva, usufruir do processo. Como um baloiço. Um baloiço avança e recua, avança e recua, avança e recua. Não vem de lado nenhum, nem vai para lado nenhum. Está em movimento mas não sai do mesmo sítio. É o movimento pelo movimento e nada mais. Num baloiço não há vencedores nem vencidos. Basta apenas aprender a andar nele e divertir-se. E enquanto uns andam de baloiço, por baixo desses, na maciça solidez do chão, outros irão competir furiosamente para ver quem chega em primeiro lugar a qualquer meta do seu contentamento.