01 maio, 2013

NO FIM ERA O CINEMA


Há muito que alimento uma birra de estimação com a arte moderna, birra que, na minha adiantada idade, já não é passível de redenção. Despacho Serralves em cinco minutos e o Reina Sofia em dez, cinco dos quais na loja dos recuerdos.
Mas também percebo que a arte não poderia continuar a ser o que já foi. Bruegel, Ticiano, Rembrandt, Velasquez, Vermeer, Turner, Monet ou Van Gogh foram Bruegel, Ticiano, Rembrandt, Velasquez, Vermeer, Turner, Monet e Van Gogh, e se alguém hoje pintasse como eles teria a inútil veleidade de pintar o que já havia sido pintado. Portanto, não há volta a dar. É como querer ser adulto, continuando a ser criança. Não dá.
Mas o meu século XX foi salvo por uma invenção do século XIX: o cinema. O cinema é a grande arte do século XX. A Grécia deixou-nos a escultura e a arquitectura, a Idade Média deixou-nos a pintura, o Renascimento deixou-nos a polifonia. Não, o século XX não irá deixar o ready made, a instalação, o happening, as lixeiras feitas de cacos e quinquilharias que poluem os museus contemporâneos. O século XX irá deixar o cinema.
O cinema é pintura em movimento. Enquanto arte da imagem há uma essência pictórica no cinema. Essência pictórica que o obriga a um compromisso com o real que os desvarios contemporâneos quebraram. O cinema inventa mas não  pode inventar demasiado. Steven Spielberg criou o ET? E daí? O Renascimento não está todo povoado de sátiros, arcanjos e santos a esvoaçarem rumo ao céu? Mas a imaginação tem limites, tanto na pintura como no cinema. O criador sonha, seja pintor ou cineasta, mas o sonho tem uma natureza apolínea, o sonho é feito de imagem, de histórias, de ambientes que, por muita grande que seja a sua força onírica, estão sempre ancorados no porto da realidade. Um centauro e uma sereia não existem. Mas existem homens, mulheres, cavalos e peixes.
O cinema, portanto, será necessariamente clássico ou então não será. Mas sendo imagem em movimento e sendo imagem misturada com engenharia, engenharia mecânica, engenharia da cor, engenharia do som, o cinema irá muito para lá da pintura. O cinema, poderei assim dizê-lo, salvou a pintura da sua morte. Todo o cinema, claro. Em todo o cinema há luz, cor, ambientes e qualquer coisa para contar, seja natural, seja artificial. Mesmo nos filmes maus e péssimos do mesmo modo que também nas más e péssimas pinturas. Por que carga de água não pode o cinema ter também o seu menino da lágrima?
Mas há filmes onde isso se nota ainda mais do que noutros. É o caso de Fausto, na versão de Alexander Sokurov. Ver um filme como este é ver o cinema como pura herança da pintura, não só como pintura em movimento mas com a cor da pintura, a luz da pintura, a plástica da pintura, a riqueza metafórica da pintura. E como qualquer boa pintura que se preze, para ser visto no seu lugar natural: o cinema. Que, na verdade, é cada vez mais um museu.