15 maio, 2013

NATURA DESNATURATA


A minha 4L morreu.
A minha 4L morreu e tornei-me um homem diferente. Eu sei que parece estúpido pois um carro não passa de um carro e eu nem sequer sou pessoa para ligar a carros, ainda para mais velhinho e cansado. Sempre vi os carros como meros meios de transporte que apenas servem para levar uma pessoa do sítio X para o sítio Y. Parece assim estúpida esta minha tristeza, não por perder um carro enquanto objecto útil, útil tal como são úteis uma ventoinha ou um berbequim, mas por ser a minha 4L. Logo eu, que nunca fui dado a fetichismos, do género de andar a lamber sapatos e a cheirar soutiens, ou sequer apanhado pelo fetichismo de qualquer mercadoria. Marx e Freud comigo não se safavam.
Por isso dediquei-me a reflectir sobre esta minha estranha reacção. Lá bem dentro do nevoeiro dos meus pensamentos lembrei-me que um dos textos das Mitologias, do Barthes, é sobre o o automóvel. Aquele em que ele diz que o automóvel é o equivalente das antigas catedrais góticas. Por isso fui relê-lo. Só que ele faz uma análise semiótica e sociológica do automóvel e isso nada tem que ver com a minha 4L. A minha 4L não é um carro, é a minha 4L.
O que acontece com a minha 4L é que ela sou eu. Não é uma criatura que me pertence tal como me pertence este teclado onde escrevo, ou o mundo é criatura de Deus. Deus fez o mundo mas Deus não é o mundo, criador e criatura são duas entidades separadas. A minha 4L não é uma criatura pois eu e ela formamos um todo, uma mesma substância em que eu sou o pensamento e ela a extensão. A minha 4L é um objecto, não tem consciência de si, nem sequer consciência do mundo. É um objecto inanimado. Mas um objecto inanimado que faz parte da minha identidade, ela sou eu mas sem saber que sou eu. Não tem consciência de si mas eu tenho consciência dela enquanto consciência de mim. Quando eu me penso, penso-me também através dela. Porque a minha 4L é muito mais do que um carro: é uma parte da minha vida, uma exteriorização de mim no espaço e no tempo, sendo eu também a minha 4L enquanto consciência dela em mim.
Foram 20 anos em que mais do que sermos um do outro fomos uma unidade. Eu posso vir a comprar um Mercedes classe C, um BMW série C, um Audi A6, quiçá, até um Fiat Uno de 1985 com 400 000 km. Mas, sendo meu, nunca será o meu carro mas a minha 4L porque não é um meu de posse mas um meu ontológico. Sei que hoje já sou uma pessoa diferente. É como se o Deus de Espinosa ficasse sozinho a olhar-se ao espelho. Não sei para onde vou, sei que não volto a andar nela. Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida.