20 maio, 2013

MINDBOAT


Se há dias me perguntassem se eu tinha visto o Lifeboat, eu teria respondido que sim. Sim, que vi, que conheço, que é integralmente passado num bote salva-vidas, à deriva no Pacífico, no qual vários homens e mulheres, sobreviventes de um naufrágio, vão manifestando as suas humanas naturezas. Mas 20 anos é muito tempo, a minha memória está muito longe de ser perfeita, e já nada mais saberia a seu respeito. Não me lembrava de nenhum rosto, de nenhum diálogo específico, de nenhuma situação concreta passada no filme. Nada, apenas uma névoa enorme.
Mas Lifeboat era um dos filmes que faziam parte do meu catálogo de filmes vistos, um filme alojado na minha consciência enquanto filme conhecido, num plano diferente, portanto, dos milhares de filmes que nunca vi e assumo ignorar. Filmes que estão fora da minha consciência, ainda que saiba os seus nomes e respectivas sinopses. Por exemplo, eu nunca vi um filme chamado American Pie mas sei que existe e basta uma rápida consulta para saber em que consiste. Mas não posso dizer que o conheço pois, ao contrário de Lifeboat, nunca o vi. 
Entretanto, voltei a rever o Lifeboat. E foi ao revê-lo que tive bem a noção do que pode ser a diferença entre a consciência e a ilusão da consciência, entre o saber e a ilusão do saber, entre ideias claras e distintas e ideias confusas ou obscuras, e o modo como tantas vezes nos enganamos a nós próprios e aos outros. Revi o filme, 97 minutos de filme. Agora sim, tenho na minha consciência as sequências do filme, como começa e como acaba, as personagens e os seus rostos ou até algumas vozes. Sei caracterizar cada uma delas, conheço as suas personalidades, as suas formas de estar na vida. Em suma, posso agora dizer não só que vi o filme mas que conheço o filme.
Porém, já antes dizia que o conhecia só porque o tinha visto. Mas será que conhecia? Não, o meu conhecimento dele estaria precisamente ao mesmo nível do meu conhecimento de American Pie, que nunca vi, mas cuja sinopse eu tinha lido. O que diria eu? Que conheço Lifeboat, porque vi. Que não conheço American Pie, porque nunca vi. Porém, o que eu teria para dizer sobre o primeiro estava precisamente no mesmo registo de consciência do segundo. Quem me ouvisse falar de ambos iria pensar que a minha relação com eles seria igual. O meu discurso a respeito de um seria idêntico ao meu discurso a respeito do outro.
Provavelmente é também isto que se passa com muitos dos nossos pensamentos. Pensamos sobre isto e aquilo, falamos sobre isto e aquilo que julgamos conhecer e dominar na nossa consciência. Porém, quantos desses pensamentos não se baseiam em ideias obscuras, esquemas mentais estereotipados, raciocínios ou ideias feitas mecanicamente desenvolvidas a partir de causas que acabamos por desconhecer? Porém, falamos, opinamos, discutimos, criticamos, avaliamos.  Quantas desses processos mentais não passarão de breves sinopses de verdades completamente fora do nosso alcance, sinopses que se formam nas nossas cabeças sem sabermos muito bem como e porquê?