21 maio, 2013

MALDITA CELULITE


Julia Margaret Cameron | Estudo Alegórico [1865]

Num anúncio a um creme vem a frase: "Adeus celulite! Olá corpinho." A brincar a brincar, a frase apresenta uma certa complexidade ontológica. Estará a celulite para o corpo como a cor para o carro ou o estar sentado para um ser humano? O carro é sempre carro independentemente de ser branco, azul ou cinzento. Um ser humano é sempre humano, esteja sentado, em pé, deitado ou de cócoras. A cor branca do carro ou o estar sentado são por isso acidentes. Se nós tivermos um carro branco e o pintarmos de cinzento, o carro continua a ser o mesmo. Não vamos dizer que temos outro carro só porque mudou a sua cor uma vez que não é a cor que dá identidade ao carro. Se assim fosse, diríamos que um carro branco e um frigorífico branco teriam a mesma identidade, ideia que seria naturalmente estúpida, e mesmo sabendo que estupidez é coisa que não falta por aí, ninguém iria cair nessa.
Ora, de acordo com a frase do anúncio, a celulite, embora estando no corpo, não faz parte do corpo, tal como fazem os ossos, os músculos ou a pele. Não concebemos um corpo humano sem ossos. É verdade que há animais que não têm ossos mas chamam-se borboletas, aranhas ou berbigões e não Manuel Germano. Por isso, jamais seria possível um anúncio que dissesse "Adeus ossos! Olá corpinho". Mas de acordo com a lógica do anúncio a celulite será qualquer coisa que esconde o corpo, que o dissimula e cujo desaparecimento permitirá mesmo uma aparição do corpo na sua autenticidade. Se dizer adeus à celulite permite dizer olá ao corpo, é porque ao contrário do corpo com celulite, que é um corpo inautêntico, o corpo sem celulite é o corpo, o verdadeiro, autêntico, genuíno, o corpo em sim mesmo.
Podemos colocar o mesmo problema num plano moral. Uma antropologia pessimista dirá que o mal faz parte da natureza humana. Está entranhado em nós como uma nódoa de azeite na toalha ou o erro na cabeça de Vítor Gaspar. Uma antropologia optimista, por sua vez, defende que o mal é um acidente, resultado de certas condições negativas, mas que sendo anulado fará emergir a nossa verdadeira natureza, o ser humano na sua autenticidade. O mal seria assim uma espécie de celulite da alma, uma coisa que está a mais e que só surgiu porque houve condições para isso. Neste sentido, acredita-se que um dia se possa dizer "Adeus mal! Olá ser humano".
Eu acho a ideia bonita. Só queria era saber onde se podem arranjar cremes para a alma.