19 maio, 2013

LA LA LA


Coisa estranha ver uma notícia como esta. Ter sido ontem o festival da Eurovisão e não saber de nada. Uma boa oportunidade para compreender como é implacável a história e em tão pouco tempo se muda de um mundo fechado para um universo infinito. 
Como explicar actualmente a um garoto que ouve música num pequeno gadget com centenas de canções misturadas e que tem 24 horas de MTV por dia e milhares de vídeos no youtube, a importância que tinha um programa como Quando o Telefone Toca, para o qual as pessoas telefonavam para ouvirem uma canção, nomeadamente, as que concorriam aos festivais? Como explicar o significado de comprar um single apenas para poder ouvir uma canção num gira-discos? Como explicar a recepção a Simone de Oliveira em Santa Apolónia como heroína nacional depois de ter ficado em penúltimo lugar com a sua Desfolhada, para compensar a tremenda injustiça da votação? E como explicar que as famílias se juntavam ao sábado à noite para assistirem aos festivais como hoje se juntam para ver uma final de futebol, roendo as unhas enquanto se ia ouvindo os 6 pontos dados pelo Reino Unido, os 4 do Luxemburgo ou que os nuestros hermanos fossem simpáticos com os vizinhos do lado, apesar dos Quarenta Conjurados?
Explicar, explica-se. Explica-se mas não se compreende. Ou melhor, compreende-se como se compreende um laço de vassalagem na Idade Média, uma revolução em Inglaterra no século XVII ou em França no século XVIII, o casamento no Antigo Regime ou a ascensão de Hitler ao poder. Quer dizer, não se compreende. Pensa-se que se compreende mas não se compreende.
Na canção que se pode ouvir em cima, a esforçada cantora espanhola da canção vencedora desse anos, cantarola a frase La La La 138 vezes. 138 vezes na canção. Mas milhares de vezes na rádio, nas bocas das pessoas cantarolando na rua, na cozinha, a conduzir o automóvel. Neste mundo fechado tudo era simples como um La La La repetido à exaustão. Um mundo ainda longe de um universo infinito cujo centro não está em parte alguma, onde não há centro nem periferia pois tudo está em tudo e tudo coexiste num mesmo labirinto sem que muitas vezes se cheguem a encontrar.