17 maio, 2013

ADAGIO MA NON TROPPO

Nikolai Bakharev

Estava eu a escolher laranjas na secção de frutas do supermercado quando começa a sair dos altifalantes o Adagio for Strings do Samuel Barber. Neste caso, não para cordas mas para sintetizador. Sintetizador do qual emanava um efeito sonoro assim entre o gasoso e o pastoso. Não faço ideia do que possa ser um efeito sonoro entre o gasoso e o pastoso mas é a única coisa que me vem à cabeça para tentar explicar o que possa ser o Adagio for Strings expelido por um sintetizador.
De início, senti um certo desconforto com esta versão sintética ali perdida naquele também sintético mundo de detergentes, refrigerantes e pudins instantâneos. Depois, já mais conformado, comecei a pensar que os ouvidos não são todos iguais e que se os cães e os gatos se dão bem na terra, os peixes preferem a água e as aves dão-se bem pelo ar. Isto dito assim fica com um ar um bocadinho esotérico, por isso acho melhor explicar o significado deste meu tão profundo pensamento que mais parece um fragmento pré-socrático da dupla Diels/Kranz.
Há já uns bons anos fui com os meus filhos a Lisboa para ouverem (Olá, José Duarte) uma versão infantil da Flauta Mágica. A música era pavorosa, uma coisa assim também cheia de sintetizadores, e confesso que de belo canto nada ouvi, apenas umas vozes que tanto podiam estar a cantar aquilo como o Sobe Sobe, Balão Sobe. Mas era a música certa para os ouvidos certos. Impingir a verdadeira Flauta Mágica àquelas inocentes criaturas seria pior do que obrigá-las a trocar uma taça de Chocapic por uma sopa de espinafres.
Este ano eu estou a dar uma disciplina que é assim um cocktail de várias disciplinas. As últimas aulas foram dedicadas à família e resolvi passar um filme que pode servir como ponto de partida para analisar as relações familiares. O filme é mau. Não muito mau, mas mau. Mas os alunos gostaram bastante e contribuiu para os ajudar a perceber certas coisas. Ora, eu podia ter passado um dos vários filmes do Bergman que também podem servir de ponto de partida. Mas se é verdade que os filmes são feitos para as pessoas, há pessoas que não foram feitas para certos filmes. Por isso há que pensar no objecto certo para o sujeito certo.
Um supermercado não é o Grande Auditório da Gulbenkian e a maior parte das pessoas que vai aos supermercados nem faz ideia do que possa ser o Grande Auditório da Gulbenkian ou até sequer o Gulbenkian. Tenho a certeza de que para quem está habituado a elevados frémitos auditivos com o Tony Carreira ou a Céline Dion, ouvir uma versão plastificada do Adagio for Strings já será um momento de grande arrojo musical. Trata-se de uma tremenda impureza melómana? Trata-se. Mas o mundo é o que é, os ouvidos são o que são e as escravas trácias também têm direito aos seus grandes momentos de plástica erudição, algures perante uma embalagem de Tide, um gel de banho ou uns rissóis de camarão congelados.