18 maio, 2013

A MODERNIDADE

Bruce Mozert

Não há muitas coisas que me irritem. Mas há algumas. Uma delas é a ideia de "modernidade", ideia tão usada e abusada. Não é o facto de existirem coisas modernas. Vendo bem, são as coisas modernas que fazem a história e a história é uma coisa boa pois se não fosse ela ainda andávamos a esconder o fogo uns dos outros e a tocar tambores à sua volta, assim tipo jovens alternativos nos festivais de Verão.
Tales de Mileto, Aristóteles, Guilherme de Ockham, Roger Bacon, John Locke, Voltaire, Montesquieu, Marx ou Wittgenstein foram modernos. Hipátia de Alexandria, Hildegard von Bingen, Heloísa, Sofonisba Anguissola, Ana de Castro Osório, Rosa Parks ou Coco Chanel foram modernas. Giotto, Caravaggio, Monet e Picasso foram modernos. Dante, Cervantes ou Virginia Woolf foram modernos. Monteverdi e Stravinski foram modernos. Tanto as catedrais góticas como a torre Eiffel foram modernas.  Passar a ver a lua com um telescópio ou andar a cortar cabeças em França em 1792 foram coisas modernas. Se as coisas modernas fizessem barriga como a cerveja já a história teria uma pança como a de Pantagruel.
Ser moderno não é mais do que o modo como as coisas passam a ser em oposição àquilo que eram. Portanto, por razões óbvias, nada tem de irritante. Bem até pelo contrário quando se dá o caso, aliás frequente, de as coisas anteriores serem piores do que as novas. O que é irritante é termos cristalizado o conceito de moderno, dando-lhe um sentido contemporâneo, ou seja, fazendo com que a ideia de "modernidade" associada ao século XX acabasse por anular a naturalidade e espontaneidade de tudo o que foi, é e será moderno ao longo dos tempos. Ora, isto é de um tremendo narcisismo histórico. Como se o umbigo da história estivesse bem centrado no nosso tempo. O século XX esteve cheio de coisas modernas, todas elas, entretanto, envelhecidas ou já mortas.
Umas das vantagens de nos vermos em fotografias antigas é aprendermos a ver a efemeridade de tudo. Por exemplo, vermos agora as calças que vestíamos e os cortes de cabelo que usávamos em 1974, ou os enchumaços nos ombros que faziam as mulheres dos anos 80 parecerem gladiadores romanos, faz-nos muitas vezes sentir  ridículos e envergonhados com as tristes figuras que fazíamos. Mas na altura era tudo moderno, criando-se a ilusão de que o que éramos era como deveria ser e só poderia ser, anulando tudo o que tinha sido. Como se tudo começasse de novo e nada tivesse existido antes disso.
E o mesmo se passa com tudo. Psicanálise, marxismo, fenomenologia, existencialismo, estruturalismo, pós-modernismo, fenómenos sociais, tecnológicos económicos, políticos, revoluções, movimentos culturais, ícones, personalidades, eu sei lá, tudo e mais alguma coisa que fez a tão afamada modernidade contemporânea e deixou tanta gente excitada durante uns breves minutos históricos.
A história tem coisas imprevisíveis mas outras há que não falham. Uma delas é que tudo o que é novo irá um dia submergir. Excepto, talvez, a própria ideia de modernidade, que parece ter vindo para ficar, tornando-se uma obsessão futura. Nesse caso, paradoxalmente, a modernidade passará mesmo a existir. Como? Sendo moderno, estar obcecado pelo moderno. Ser moderno é ser moderno. Assusta-me dizer isto, mas talvez  Marinetti possa ter tido alguma razão.