28 maio, 2013

A METÁFORA MORTA

Marcel Mariën

Ontem, quando, depois de dar um par de estalos a mim mesmo, dei por mim a dizer que a vida deve ser como andar de baloiço e a comparar a vida com o futebol, fiquei deveras assustado. Um pouco como aqueles sonâmbulos que entretanto souberam que andaram a passear em cima do telhado. A intenção até era boa mas o resultado desastroso. E isto porquê?
Por exemplo, nós lemos filósofos como Epicuro, Séneca ou Marco Aurélio, lemos os Evangelhos ou as Máximas de La Rochefoucauld e em todos eles encontramos ensinamentos, metáforas, sugestivos símiles, conselhos de ordem prática. Textos onde a complexidade especulativa e a indagação racional são substituídas por uma desarmante e económica simplicidade, como se se tratassem de vozes amigas sussurrando aos nossos ouvidos, ajudando-nos com os seus sábios conselhos. Pensando concretamente nos filósofos antigos, encara-se a filosofia como uma medicina da alma, uma medicina sobretudo preventiva, explicando os perigos que espreitam em cada excesso, em comportamentos displicentes que desviam os seres humanos de uma vida feliz ou de uma vida boa. Ora, para isso, um filósofo tem que se fazer entender, tem que ser pedagógico, evitando veleidades esotéricas e especulativas. Linguagem clara e sugestiva, frases curtas, enfim, escrever como quem conversa à lareira com um cálice de Porto na mão. Por isso, ler filósofos como Epicuro, Séneca ou Marco Aurélio nem parece tratar-se bem de filosofia. E Jesus Cristo, que tanto ensinou, não era um filósofo.
Actualmente as livrarias estão inundadas de livros que tentam seguir essa antiga tradição que mistura filosofia e religião. Creio que foi com Hegel que aprendi a formalmente valorizar a vida do espírito, seja através da arte, da religião ou da filosofia, mas hoje, sempre que vejo a etiqueta "espiritualidade" à minha frente apetece-me logo puxar a pistola. Tanto na literatura, como na religião ou na filosofia, há hoje uma pulsão espiritualista e moralista que parece herdeira dos antigos gregos e romanos, misturada com uns pós evangélicos. Porém, a experiência de ler esses pseudo-filósofos ou pseudo-escritores é bastante diferente de ler um filósofo estóico ou o Evangelho. Porquê? Por se tratarem de pastiches e pastiches manchados pela aparência e superficialidade do kitsch e do mau gosto, perdendo-se a originalidade, a frescura, a espontaneidade primitiva de quem o disse pela primeira vez e, por isso, no momento certo para o dizer.
Significa isto então que já não se pode escrever ou falar assim? Não. Mas então como separar as águas? Quais os critérios que permitem distinguir a boa da má literatura ou a boa da má espiritualidade? Não é fácil. Há uma linha muito ténue a separá-las e que creio, se distingue mais por intuição do que através de critérios formalmente estabelecidos. Talvez esta fotografia que aqui trago seja um bom exemplo disso.
Era suposto esta fotografia ter graça ou ser criativa e, por isso, ganhar um certo estatuto de dignidade artística ou cultural. Trata-se, porém, de uma fotografia irritante, não apenas pelo seu absoluto desinteresse mas também pelo seu evidente mau gosto. Queria ser uma fotografia inteligente e um piscar de olho intelectual mas acabou por ficar uma coisa assim entre um porno softcore e arte camp.
A ideia é brincar com a popular associação de Freud à sexualidade. Aliás, cientificamente correcta. De facto, Freud valorizou bastante a sexualidade em todos os níveis da existência: na estruturação da personalidade, começando pela sexualidade infantil, nas patologias, na arte, na religião, nos sonhos, na moral, e isso, tanto através do que mostramos como do que escondemos. A associação, portanto, não é descabida e a fotografia aproveita-se disso. Ou seja, há aqui um fundo de verdade, uma lógica, um sentido. Mas é precisamente no aproveitar que está o ganho, neste caso, mais oportunista do que oportuno.
O que esta fotografia tem de irritante são fundamentalmente duas coisas: por um lado, uma enorme ausência de subtileza e manifestação do óbvio, dissimulados numa capa supostamente criativa. Por outro lado, mas associada à primeira, um exibicionismo histérico e estapafúrdio. Daqui resulta uma espécie de inebriada linguagem adolescente, uma exploração tão excessivamente metafórica, tão visualmente metafórica que acaba por matar o que a metáfora tem de mais produtivo e virtuoso: o seu equilíbrio sereno entre a sugestão visual e a ideia que lhe está subjacente.
Não me perguntem onde podemos encontrar um critério objectivo para o gosto, onde estão as regras que permitem distinguir o que é bom do que é mau. Sei apenas que a diferença existe e que muitas vezes é tão subtil como o que separa uma sopa ligeiramente salgada ou ligeiramente azeda de uma boa sopa. Ora foi um pouco isto que eu senti depois de ter acabado de escrever a metáfora do baloiço e ao comparar a vida com o futebol. Queria brincar aos estóicos mas acabei por me ver assim uma mistura de Lou Marinoff e Paulo Coelho com a sopa a ficar demasiado salgada. Há muito que descobri ser radicalmente imperfeito. Mas por vezes escusava de exagerar. Sal a mais provoca hipertensão e esta pode matar.