13 maio, 2013

A IDADE DA RAZÃO

August Sander

Há muitos anos, andava eu na universidade e, devido às minhas leituras de então, György Lucácks era um nome bastante familiar para mim. Só que o homem era húngaro e eu não fazia a menor ideia da pronúncia correcta do nome. Um dia calhou um dos meus irmãos levar lá para casa um casal, ela alemã, ele húngaro. E eu, zás, aproveito logo para perguntar como se dizia, repetindo-o várias vezes para não me esquecer.
No início deste ano lectivo descubro que tenho um aluno romeno. Mais em jeito de brincadeira, pergunto-lhe como é que em romeno se pronuncia Ceausescu. O rapaz lá me disse, repetindo várias vezes para eu poder afinar o mais possível a minha dicção romena.
Mais recentemente, durante um jantar, aproveitei a presença de um holandês para me esclarecer uma velha dúvida: qual é a verdadeira pronúncia de Vermeer. E o holandês, desta vez um holandês, lá teve a paciência de repetir várias vezes para eu poder afinar o nome.
Entretanto, há dias, numa aula, quando me preparava para dizer Vermeer, quis aproveitar a lição holandesa do meu compagnon de table para, pela primeira vez, poder dizer Vermeer como deve ser. Porém, apesar de estar a pensar no pintor holandês, a minha cabeça mais parecia um quadro do Yves Klein, não fazendo já a menor ideia de como se diz o nome do pintor, como se nunca tivesse sabido. Depois, por causa disso, tentei também lembrar-me da pronúncia de Ceausescu. Nada, kaput, varreu-se-me por completo.
Porém, 30 anos depois, continuo perfeitamente a lembrar-me da pronúncia húngara de Lucácks que aprendi aos 20 anos. Como explicar este aparente absurdo? Apesar de, pelos vistos, me esforçar para não o ter, os dois recentes esquecimentos mostram que finalmente já tenho idade para ter juízo. Sou um homenzinho e não um jovenzinho armado aos cágados. E ser homem é também aprender a não ligar ao que não é verdadeiramente importante.