02 maio, 2013

2 DE MAIO

Lewis Hine

Há uns anos visitei o cemitério de Highgate em Londres. Por lá dorme gente importante, sendo Karl Marx um dos mais conhecidos. Embora  a visita não tenha sido motivada por motivos reverenciais mas pelo muito estético prazer de passear num cemitério vitoriano, não pude evitar uma sensação estranha ao passar pelo seu túmulo.
Não foi só por estar perante alguém com quem passei meses da minha vida, a estudar as suas ideias e a escrever sobre elas. Estar perante Karl Marx num cemitério e, sobre o seu cadáver, ler a famosa frase "WORKERS OF ALL LANDS UNITE", escrita em 1848, sugeriu uma sensação de estar perante ideias mortas, ideias bem afastadas do rebuliço da vida moderna mesmo ali ao lado na grande cidade, jazendo sob um silêncio sepulcral e rodeadas de umbrosas áleas, húmidas heras, túmulos cobertos de musgo.
"TRABALHADORES DE TODO O MUNDO, UNI-VOS". O que pode querer hoje dizer esta frase escrita no Manifesto Comunista de 1848? A frase foi escrita tendo como expectativa uma revolução mundial, uma revolução socialista, operária, de operários dickensianos, miseráveis, analfabetos, quase marginais. Estes operários já não existem nem hoje faz sentido esperar uma revolução socialista e operária para voltar a repetir a URSS, a Roménia, a Bulgária, a Albânia ou a China.
Porém, há qualquer coisa que nos impele a pensar que Marx não está morto. Que Cristo, afinal, não morreu, Marx, afinal, não morreu e que nós também não nos sentimos lá muito bem. Sei lá, qualquer coisa que me diz que embora já não possamos ser marxistas também não podemos deixar Marx morrer definitivamente no meio daquelas belas heras vitorianas.
Daí eu achar que devemos adormecer no dia 1 de Maio para acordarmos, com espírito novo e revigorado, no dia 2 de Maio. Um 2 de Maio que nos dê uma nova linguagem, novos conceitos, novas acções, novas formas de luta e de protesto. Por muito valor científico, filosófico e político que tenha tido o Marx que repousa em Highgate, os seus conceitos, o seu mundo, os seus operários, os seus capitalistas, os seus políticos, já não são os nossos.
As belas e vetustas heras que o rodeiam em Highgate já não se compadecem com as novas eras que aí vêm. Hoje é dia 2 de Maio e é hoje, não ontem, dia 1 de Maio, que precisamos de compreender o que há para fazer.