21 abril, 2013

PUM!

Jacques Henri Lartigue

Soube por acaso que o dia 20 de Abril já foi o dia do turista e por falar em turismo lembrei-me de Susan Sontag. Num dos seus Ensaios sobre Fotografia faz uma associação entre turismo e fotografia, vendo a viagem como uma estratégia para o turista acumular  fotografias. A fotografia torna-se assim um privilegiado meio de acesso à experiência: "uma fotografia não é apenas o resultado de um encontro entre o fotógrafo e um acontecimento; fotografar é em si mesmo um acontecimento".
Mas um acontecimento que é uma forma de não intervenção. E dá dois exemplos interessantes. Primeiro, os fotojornalistas que, em contextos humanamente dramáticos, se encontram a fazer fotografias para captar o momento, em vez de intervirem para ajudar as pessoas cujo momento está a ser captado por eles. Segundo, o que acontece na Janela Indiscreta: a relação do protagonista com o acontecimento só é possível porque está preso a uma cadeira de rodas, obrigando-o a olhar, um olhar que só é possível por não poder intervir na acção. O que se passa na relação do turista com a realidade que procura fotografar desde que sai do hotel, passa também por aqui. Eis a frase certa: "Quem intervém não pode registar; quem regista não pode intervir".
Há tempos fui, pela segunda vez, à casa de Camilo e Ana Plácido. Eu adoro Camilo e  ainda por cima andei a ler a correspondência dele com o Visconde de Ouguela, na qual há tantas referências à vida naquela casa amaldiçoada. Tal como da primeira vez, a visita era guiada. Eu ia com uma máquina fotográfica ao pescoço, doidinho para tirar umas fotografias mas, por causa do meu sentido de pudor, até porque se trata de um espaço intimista e não um enorme palácio onde nos tornamos quase invisíveis, não tive coragem de andar a fotografar enquanto a senhora falava.
Entretanto, a visita acaba e eu, assim meio envergonhado, pergunto se podia voltar atrás só para tirar meia dúzia de fotografiazinhas. Isso implicaria eu andar sozinho lá pela casa e confesso que esperava ouvir uma tampa. Mas a senhora disse que sim, pedindo-me apenas para ser rápido pois precisava de ir almoçar para receber um grupo com o qual já tinha hora marcada.
Claro, claro, minha senhora, por quem é, e, inesperadamente, penso na possibilidade de estar prestes a viver um milagre: eu, só eu, absolutamente sozinho no quarto de Camilo, no quarto de Ana Plácido, na sala onde passavam os serões, em frente à secretária onde escrevia de pé, da cadeira onde disparou o tiro fatal, da estante com o seus livros, enfim, perante as janelas pelas quais espreitava para, desesperado, ver o Jorge a emburrecer (refere-se assim ao filho numa das cartas). Eu, sem guia, sem turistas, apenas eu com um silêncio de século XIX, como se fosse fazer uma viagem no tempo e a qualquer momento Camilo, Ana Plácido ou o Jorge com uma fisga na mão pudessem surgir de qualquer porta.
Só que o milagre não existiu. Com a senhora à minha espera para ir almoçar, e detestando eu fazer esperar as pessoas, andei numa desvairada correria a disparar sobre tudo o que era sítio, mal tendo tempo para respirar. Quem me visse pensaria que iria apanhar um comboio, tal era a velocidade, a brusquidão de movimentos, aquele olhar rápido e tenso de quem está a ver uma partida de ténis na bancada central.
Na mesma manhã, percorro duas vezes a casa de Camilo e Ana Plácido. E em ambas as vezes com a sensação de que não estive naquela casa, ou de que não vi bem aquela casa. Na primeira, parecia estar numa aula de história. Na segunda, senti-me uma espécie de turista que é largado no centro de Florença e a quem lhe dão apenas uma tarde para ver a cidade. Mas que em vez de a ver, se limita a disparar sobre ela.