03 abril, 2013

O SILÊNCIO DO INOCENTE

        Alfred Eisenstaedt

Onde alguns vêem motivo de escárnio, outros vêem motivo de piedade e compaixão. Ora, é piedade e compaixão o que verdadeiramente sinto perante este pobre repórter. Tomo mesmo a liberdade de o eleger como mártir, herói e símbolo oprimido da mais pura e eloquente vacuidade jornalística.
Queixava-se Orson Welles da concorrência feita pelo jornalismo ao cinema, não só como meio de entretenimento popular mas também de ficção. Para ele, o cinema serve-se da ficção para entreter as pessoas, enquanto o jornalismo deve limitar-se a relatar ou comentar os factos. Mas uma coisa é relatar ou comentar os factos, outra é alimentar-se dos factos. Chamava a isso "jornalismo depravado", o jornalismo que se alimenta de tal modo dos factos que acaba por recriá-los, inventá-los, torturá-los até à medula, focá-los tanto até entrarmos no campo da sua invisibilidade, fazendo assim com que não-factos, não-acontecimentos, factos nulos ou vazios povoem cabeças já meio esvaziadas pelas sombrias contingências da vida. É como através de uma máquina fotográfica aproximar de tal modo um rosto, obrigando a ver poros inúteis em vez de um rosto com uma identidade e um sentido.
Este repórter é um herói pois, ainda que involuntariamente, teve a digna capacidade de não dizer o que não existe para ser dito. Ao contrário de tantos outros colegas seus que, como incontinentes máquinas falantes, se esvaem em intermináveis discursos sobre coisa nenhuma, este homem, com os seus silêncios e infantil atrapalhação, consegue, como se fosse ele próprio uma pintura expressionista, revelar o que está mesmo chapado à frente dos olhos mas que cada vez menos pessoas conseguem ver: o nada.
A existência de um discurso ou de linguagem não implica a existência de realidade a que supostamente se refere esse discurso ou linguagem e o actual jornalismo depravado é disso uma bela prova. O cinema, esse sim, é a prova do contrário.