19 abril, 2013

LEITE FRIO COM GROSELHA


Experimentei um novo amaciador para o cabelo. Apesar de estar numa banheira, num ápice, dou comigo deitado na cama de uma clínica onde fui operado à garganta quando tinha 5 ou 6 anos. Na minha cabeça, o cheiro do amaciador de imediato se transformou no cheiro do leite frio com groselha que as enfermeiras me davam para cicatrizar a garganta. Nunca mais voltei a bebê-lo. Mas o cheiro do amaciador fez-me regressar esses dias longínquos. Agora que voltei a recordar essa experiência, não é das dores, da sala de operações ou de me porem uma máscara na cara para me anestesiar que me lembro. Lembro-me disso mas, graças ao cheiro do amaciador, do que me recordo melhor é do sabor do leite com groselha e, graças ao facto de estar num quarto individual, da minha mãe a dormir num divã ao lado.
As referências hospitalares não acabam aqui. Pouco antes disto me acontecer, calhou reler um livro que li há 26 anos: Um Homem Sorri à Morte, de José Rodrigues Miguéis. O livro, autobiográfico, fala da sua terrível experiência num hospital de Nova Iorque, na sequência de uma doença bastante grave. Acontece que eu próprio li esse livro numa cama do hospital Pulido Valente, onde fui operado devido a um pneumotórax espontâneo. Ao relê-lo agora, acabei também por, involuntariamente, reviver esses dias numa cama de hospital.
A experiência clínica pela qual passa o escritor é tremenda. Não só pela doença propriamente dita, dores e limitações físicas, mas também pelo desconforto metafísico de quem passa pela terrível experiência de passear ao lado da morte. Recorda, porém, o modo afável e humano como foi tratado, atenuando bastante a situação-limite de quem faz tão mórbido passeio.
Ora, eu percebo a sua experiência porque foi também essa a minha experiência hospitalar. Tenho 25 anos, casado há pouco tempo e, fresco que nem uma alface, preparo-me para ir dar aulas. Sem saber porquê vejo-me no dia seguinte com dores insuportáveis numa cama de hospital, com um tubo enfiado no pulmão. Dias depois, dou comigo dentro de uma ambulância a ser transferido para Lisboa, onde irei ser operado. Dias depois, passo por um pós-operatório tramado, sem me poder mexer, cheio de dores e com três tubos enfiados num pulmão. No entanto, recordo também com agrado o modo como fui tratado em ambos os hospitais, tanto por enfermeiras como médicos, o que me ajudou bastante a suportar esses dias de solidão e desespero perante a doença, a dor  e a consciência aguda da minha absoluta finitude.
Acredito que a nossa relação com o Estado deve ser parecida com experiências hospitalares como estas que agora recordo. O Estado não existe para nos fazer felizes mas para ajudar a evitar a infelicidade. Estados que pretendem interferir na felicidade das pessoas são os totalitários cujos governantes se apresentam como pais e cujos cidadãos são os filhos. Pais que, com os seus ideólogos oficiais, sabem o que faz o povo feliz, do que precisa o povo para ser feliz e o que deve o povo fazer ou não fazer para ser feliz. E se o povo quiser ser feliz de um modo que não coincida com o dos governantes e ideólogos oficiais, será castigado por isso. Quando Nicolae e Elena Ceausescu estavam a ser julgados pelo tribunal revolucionário que os condenou à morte, dizia ela aos militares que não poderiam tratá-la daquele modo pois era como uma mãe para eles, uma mãe a ser traída pelos seus próprios filhos.
Outra coisa é um Estado que, não pretendendo interferir nas concepções individuais de felicidade dos seus cidadãos, deve, no entanto, fazer tudo o que está ao seu alcance para dar a mão a todos aqueles que, por esta ou aquela razão, se encontram numa situação de maior fragilidade. Seja através de um bom Serviço Nacional de Saúde, seja através de uma educação de qualidade para todos independentemente da classe social, seja através de apoios sociais a quem deles precise e mereça. O Estado não pode resolver angústias pessoais e metafísicas. Mas há sofrimentos e angústias perante as quais o Estado deve exibir o seu poder protector, permitindo que não apenas os mais ricos possam pagar certos confortos e seguranças.
O que está a acontecer em Portugal neste momento, e quem sabe se não será o futuro próximo da Europa, é a existência de um Estado que, com a desculpa do défice e dos compromissos financeiros, deixou de se preocupar com os seus cidadãos. Um Estado para quem os cidadãos que deveria proteger não passam de empecilhos, peças a mais que, por causa das suas doenças, das suas educações, dos seus empregos, das suas reformas, transtornam e atrapalham o equilíbrio financeiro da nação. Viver em Portugal é, neste momento, como estar doente no hospital e ser ignorado pelos médicos e enfermeiros. Ser português é como ser um doente acamado com os médicos e administradores em redor da sua cama a insultá-lo por ter adoecido.
O Estado português não deve sustentar os seus cidadãos, não deve desperdiçar dinheiro com os seus cidadãos, não deve andar com os seus cidadãos ao colo. Mas também não pode ignorar, desprezar, escorraçar os seus cidadãos. Seria bom ver o Estado como uma pessoa, ainda que abstracta, que nos trata bem e que nos dá leite com groselha para ajudar a cicatrizar as feridas que por vezes não podemos evitar, e não como um abutre sinistro a sobrevoar-nos em círculos apenas com ganas de nos autopsiar.