14 abril, 2013

JOHANNES HEINEKEN


     Bruce Davidson | Teenager Combing Her Hair in Cigarette Machine Mirror, 1959

Durante uma aula projectei, lado a lado, um quadro de Vermeer e outro de Pollock. Instantes depois os alunos manifestaram o seu maior agrado relativamente ao segundo e indiferença face ao primeiro. Eu, que  não trocaria um único Vermeer por toda a obra do alcoólico e desvairado americano, fico sempre desolado com esta reacção. Mas também tenho que perceber que essa unanimidade no juízo de gosto dos adolescentes deve ter uma explicação. Talvez a resposta seja a mesma que explica também o facto desses mesmos adolescentes gostarem mais de cerveja do que vinho.
Vou então seguir esta pista, apesar de não perceber nada de vinhos, não fazer tenção de perceber e muito menos de fingir que percebo para me armar ao pingarelho. Gosto, e até consigo gostar bastante de vinho, mas reduzo-o apenas a três categorias: gosto, não gosto, não gosto nem deixo de gostar. Mas chega bem para o que me interessa. 
A cerveja tanto pode ser apreciada por um jovem como por um adulto. Eu sou adulto e, como quase todos os adultos, gosto de cerveja. Mas um adolescente está muito mais vocacionado para gostar mais exclusivamente de cerveja, contrariamente a um adulto que tanto pode gostar de cerveja como de vinho. A cerveja refresca, tem borbulhas e possui um sabor mais linear, que lhe permite bastar-se mais a si própria. O vinho, pelo contrário, não refresca (não por acaso os jovens, bebendo vinho, preferem o branco ao tinto), não tem borbulhas e a sua apreciação exige uma maior maturidade sensorial no plano gustativo e olfactivo.  Daí que, por muito que ponhamos jovens a beber excelentes vinhos, irão sempre preferir a cerveja, mesmo que um paciente e didáctico enólogo lhe explique as razões, gustativas e olfactivas, para deles retirar prazer.
O enólogo explica mas o jovem, sentindo o vinho na sua boca, não compreende. É verdade que um adolescente é por natureza imaturo mas a sua incompreensão não resulta de uma imaturidade cognitiva. O mesmo adolescente que não consegue gostar de vinho é o mesmo que consegue compreender e aplicar complexas operações matemáticas, o imperativo categórico ou a diferença entre as concepções naturalista e contratualista do Estado.
A incapacidade do adolescente em gostar do vinho, ou a não gostar tanto do vinho como de cerveja, não  pode também ser explicada pela ausência daquele gosto rígido e estruturante que explica o facto de ao longo da vida gostarmos muito de certas coisas e detestarmos outras, uma vez que muitos desses adolescentes que não gostam de vinho e adoram cerveja, irão, anos mais tarde, passar finalmente a gostar de vinho.
Em suma: não se trata de uma incapacidade explicada por uma imaturidade cognitiva, nem de uma intrínseca incapacidade de gostar, mas apenas de uma simples imaturidade do gosto, a mesma imaturidade que faz com que anos antes, de babete ao pescoço, não gostem de sopa. O jovem consegue percebe as razões claras e objectivas que "obrigam" a gostar de vinho mas, por outro lado, sente-se incapaz de gostar.
A relação do jovem com o vinho e a cerveja não me parece ser muito diferente do que se passa perante os quadros de Vermeer e de Pollock. Por muito que se lhe explique, no caso do primeiro, a harmonia da composição, a conjugação das cores, a organização do espaço, o trabalho de luz ou a sua simples atmosfera, ele só consegue ver um banal retrato do interior de uma casa holandesa do século XVII. Pode gostar de ver como retrato, neste caso, misturando uma certa curiosidade histórica com uma curiosidade pós-moderna de observar o espaço privado alheio, nada tendo que ver com uma experiência estética e, muito menos ainda, esteticamente depurada.
Perante o quadro de Pollock tudo será diferente. A disrupção cromática, o efeito caótico e arbitrário das linhas e manchas, o desafio da abstracção associado ao prazer de estar perante uma "coisa moderna", permite uma experiência mais fácil e imediata. Não é apenas por ser "coisa moderna" até porque habitualmente os jovens reagem mal perante quadros como A Mulher que Chora ou As Meninas de Avignon. Pollock é moderno mas um moderno completamente livre, isento daquele esforço que é necessário para conseguir apreciar uma deformação formal do figurativo. Um moderno figurativo torna-se difícil precisamente pela confusão que provoca, no sentido de gosto do jovem, a mistura de elementos figurativos e formais, ficando sem perceber o que há ali verdadeiramente para apreciar. Por um lado, vê um rosto feminino ou várias mulheres em pose mas cheias de "ruído", perdendo o seu valor retratista. Por outro lado, falta-lhe a capacidade para depurar as referências figurativas, concentrando-se sobretudo nos aspectos formais dos quadros. No caso de Pollock é completamente diferente: vê-se e gosta-se como quem sorve uma imperial em 10 segundos. Podem vir um dia a gostar também de Vermeer, mas as suas papilas gustativas estéticas precisam de tempo para amadurecer.