22 abril, 2013

A ESPUMA SEM DIAS

    Lucien Clergue | O Nascimento de Afrodite, 1959

O sagrado e o profano são duas das principais categorias da consciência religiosa. Uma consciência mergulhada num espaço profano, num tempo profano e em referências profanas, mas cujo sentido depende de uma dimensão sagrada e transcendente. Mas também é possível não ser religioso e valorizar a experiência, seja estética, ética ou poética, de diversos imaginários míticos, mitológicos ou literários.
É o meu caso, daí a minha antipatia por esta fotografia de Lucien Clergue. Não pelo fotógrafo, de quem conheço  excelentes trabalhos, mas por esta fotografia. Tal antipatia nada tem que ver com aspectos formais de natureza estética, mas com o kitsch que resulta da naturalização de uma referência sagrada: o nascimento de Afrodite. Não tivesse título e já seria diferente, concentrada apenas nos seus elementos formais. Mas ao assumir mimeticamente o que relata Hesíodo na sua Teogonia, como se estivesse, in illo tempore, na qualidade de repórter, registando o nascimento da deusa, o fotógrafo acaba por anular a margem de segurança que deve proteger o sagrado de uma contaminação profana.
Pode-se dizer por isso que grande parte da pintura renascentista ou barroca é kitsch, uma vez que vive da representação de um imaginário pagão ou judaico-cristão? Não, porque a pintura não é fotografia. Auxiliando-me, cinicamente, é verdade, de Platão (República), posso dizer que a pintura apresenta mais o estatuto de "cópia de uma cópia" do que a fotografia. Só que enquanto para Platão se trata de um estatuto mais degradante, pois estando o filósofo preocupado com a verdade de uma ideia objectiva, quanto mais "cópia de uma cópia" for, mais aumenta o seu nível de aparência e afastamento da verdade, o que me interessa é uma imagem com uma margem de segurança face ao modelo original, neste caso, um episódio mítico, protegendo assim o seu valor poético e imaginário. Ou seja, quanto "mais cópia de uma cópia" se apresentar, mais elevado será o seu valor poético. Eu não desejo expulsar os poetas por mentirem e se afastarem da realidade. Pretendo, sim, proteger os poetas da realidade e quanto mais dela se afastarem e mentirem, melhor. E mesmo que o impacto "fotográfico" de uma imagem pintada seja maior para um homem do Renascimento do que para um homem contemporâneo, haverá sempre uma descontinuidade entre o artifício de imagem pintada e a objectividade do referente por ela invocado, o que não acontece na fotografia. Por outro lado, convém também não esquecer que para a consciência judaico-cristã os episódios retratados não são de carácter mítico mas verdadeiros, ocorridos num espaço e tempo concretos, ainda que in illo tempore.
Daí a pintura estar, à partida, mais protegida do kitsch. Esta fotografia carece claramente dessa protecção, até porque feita para que a sua fotográfica força poética coincida com a força poética do mito. Porém, naturalizando o mito, exibindo explicitamente a ligação intrínseca entre o corpo da deusa e a espuma que a envolve, acaba por profanizá-lo. A pior coisa que lhe podia acontecer.