31 março, 2013

UMA PÁSCOA FELIZ

Jon Nazca

Estou naquela idade em que o impulso para reler é muitas vezes mais forte do que o impulso para ler. Estou por isso, neste momento, a reler um livro que li, ai, que até me custa dizê-lo, há 22 anos: "A Corregedora" (1884-85), de Leopoldo Alas (Clarín), um dos grandes romances da literatura espanhola e, diria mesmo, da literatura universal. Disse o bispo de Oviedo tratar-se de um «livro saturado de erotismo, de ultrajes aos costumes cristãos e de alusões injuriosas a pessoas muitíssimo respeitáveis».
Compreende-se. Toda a acção é passada numa Oviedo profundamente dominada pela igreja, uma Oviedo, escura, chuvosa e fechada e, apesar da sua linguagem elegante e finíssima ironia, é um livro profundamente subversivo no modo como satiriza  essa realidade social. Não se trata de uma subversão marcada por um anti-clericalismo grosseiro, o que não teria graça nenhuma, mas de uma subversão esteticizante na qual Clarín sobrepõe à rigidez granítica e escura do catolicismo beato e hierático, as sofisticadas teias de Eros. Por exemplo, o Dr Saturnino Bermúdez é um ridículo historiador de Oviedo, um Calisto Elói asturiano cuja eloquência retórica deixaria um Cícero envergonhado. Beato, celibatário, não perdia a sua missa diária «em busca do homem novo que o Evangelho pede» para a qual se preparava, lavando-se com grandes esponjas. Isso, porém, estava muito longe de o tornar indiferente aos encantos de Obdulia Fandiño, uma catolicíssima viúva perfumada e exuberante cujas roupas lhe acentuavam as formas carnudas.
Por razões que agora não vêm ao caso, Saturnino e Obdulia encontram-se juntos na catedral, onde «Mulheres ajoelhadas ou sentadas sobre os pés, em roda dos confessionários» ou perseguindo um jovem padre bem parecido, ouvindo-se aqui e ali «o leve rumor da prática secreta de um sacerdote e uma devota no tribunal da penitência». Sigamos o escritor:

Entraram na capela do Panteão. Era grande, escura, fria, tosca,  mas de uma simplicidade majestosa e imponente. O pisar irrespeitoso das botas imperais, cor de bronze, que Obdulia deixava aparecer por baixo da saia, curta e justa; o estrépito da seda ao roçar nas ancas; o ranger da goma da roupa interior de neve e espuma, como supunha Saturno, que já a vira de outras vezes; teriam sido mais do que suficientes para acordar do seu sono de séculos os reis ali sepultados, pelo menos, a acreditar no que o arqueólogo dizia a respeito do eterno repouso de tão respeitáveis criaturas.

Logo as gargalhadas de Obdulia Fandiño, frescas, perlinas, como as qualificava Saturno, encheram o ambiente, já profanado pelo odor mudano com que tinha infestado a sacristia mal entrara. Era o cheiro do bilhete, o cheiro do lenço, o cheiro de Obdulia com que o sábio às vezes sonhava. Misturado ao da cera e do incenso constituía uma autêntica perdição para o historiador, cujo maior ideal seria o de conseguir assim juntar os odores místicos e os eróticos, mediante uma harmonia ou componenda que julgava ser, noutro mundo melhor, a recompensa dos que, na terra, tinham sabido resistir a toda a espécie de tentações.

É lendo obras primas como esta que se torna possível entender a importância estruturante da beatice cristã na formação do erotismo ocidental. Saturnino, inebriado, luta contra si próprio. Ele sonha com o cheiro de Obdulia como um gato que persegue o cio de uma gata mas a sua consciência genuinamente cristã impõe-lhe o acrisolado e catolicíssimo aroma da cera e do incenso. Saturnino tem a sua utopia: juntar os odores místicos e eróticos no além. Mas para isso será necessário recalcar as tentações sensíveis e carnais para as quais estamos milenarmente avisados desde S. Paulo, os anacoretas ou os Padres da Igreja com Santo Agostinho à cabeça. Na essência da utopia está a sua própria impossibilidade. Saturnino quer sol na eira e chuva no nabal mas isso não é possível. Ora, a sublimação da sexualidade inerente às expressões mais subtis do erotismo ocidental será o que mais se aproxima dessa harmonia tão ansiada pelo beato historiador, de certo modo, uma síntese superior que supera igualmente o grosseiro materialismo pornográfico e uma castradora pureza espiritual.
Hoje, sou um velho sério e respeitável. Quando tinha 20 anos era um jovem sério e respeitável mas com alguns desvarios pouco sérios e pouco respeitáveis. Nesse tempo, uma das minhas grandes fantasias era fazer amor dentro de um confessionário. Sim, eu sei, uma imperdoável vulgaridade, mas aos 20 anos o juízo ainda está na sua fase pré-operatória.
Hoje, felizmente, estou curado destas patologias subversivas. Graças não apenas às menores impetuosidades da velhice a qual vai depurando cada vez mais a sensatez, mas também a uma inteligência menos turvada que melhor compreende não serem necessárias disposições histriónicas para se ser saudavelmente subversivo.
A subversão está desde logo como semente na nossa matriz católica. O catolicismo, para se organizar, precisou de copiar e adulterar inúmeros sinais pagãos. Talvez tenha sido essa a sua maçã entalada na garganta, o seu pecado original. Com o tempo, para se ser pagão, bastou apenas ser um bom e fiel cristão.