01 março, 2013

TRISTÃO E TRISTONA


           Andrei Tarkovski | A Infância de Ivan [fotograma]

La Rochefoucauld, com a sua esplendorosa e cínica lucidez do costume, sugere que as pessoas jamais se apaixonariam se nunca tivessem ouvido falar do amor. Significa isto que o amor/paixão poderá ser um produto cultural. Não sei se é ou não, não sei responder. O que é de certezinha cultural, pois nem sempre foi assim e está longe de ser universal, é a exigência da paixão como critério de legitimação, pertinência, solidez e viabilidade de uma relação estável e monogâmica como o casamento e afins. Porém, como tantas outras coisas criadas culturalmente, trata-se de um critério não só arbitrário mas perverso. A sério? A sério. Basta pensar na história de Tristão e Isolda.
A forte paixão entre Tristão e Isolda é uma das grandes referências do amor/paixão. Todavia, não era suposto apaixonarem-se, tendo só acontecido por causa de um estúpido e caprichoso equívoco. Eis o essencial: Tristão vai da Cornualha à Irlanda buscar Isolda para casar com seu tio Marcos. A mãe de Isolda, querendo fortalecer a relação entre os noivos, prepara uma poção de amor para ser bebida pelos dois. Acontece que durante um banquete antes da viagem, há uma troca de copos e a poção que estava destinada a Marcos e Isolda foi, por engano, bebida por esta e por Tristão, tendo por isso ambos ficado com uma paixão assolapada um pelo outro.
Tristão e Isolda nada fizeram para ficarem apaixonados. Aliás, jamais lhes passou pela cabeça que tal viesse a acontecer. A ideia de Tristão era apenas a de ir buscar Isolda para casar com o tio, a ideia de Isolda era fazer a viagem para casar com o tio de Tristão. Eram essas as suas verdadeiras intenções, o que queriam verdadeiramente fazer pois era isso que desejavam fazer e que acreditavam que deviam fazer. Porém, ficarem apaixonados, foi uma coisa que lhes aconteceu. Ora aqui está uma diferença relevante: uma coisa é o que nós fazemos, outra coisa é o que nos acontece. Descascar uma banana e comê-la é uma coisa que fazemos. Escorregar numa casca de banana é uma coisa que nos acontece. O que fazemos, fazemo-lo conscientemente, voluntariamente, intencionalmente, com base em certas crenças e desejos. Já o que nos acontece não passa por nós, não é um acto voluntário e intencional mas qualquer coisa que nos apanha de surpresa e vinda sabe-se lá de onde.
Foi isso que aconteceu a Tristão e Isolda, é isso que acontece a todas as pessoas que se apaixonam. As pessoas não se apaixonam porque querem, quando querem e por quem querem. Apaixonar-se é como escorregar numa casca de banana. Ou, neste caso, como beber uma poção de amor que não era suposto ser bebida. É por isso que as pessoas não se apaixonam com base em critérios racionais. Não se selecciona a pessoa pela qual alguém se apaixona como se selecciona uma pessoa para um emprego ou se escolhe um jogador para lateral esquerdo. Neste caso, deliberações marcadas por critérios racionais.
Daí haver tanta gente atrapalhada quando passa o efeito da poção. As pessoas decidem assumir uma relação estável e monogâmica.  Sim, trata-se de uma decisão, e decisão que está na origem de um acto consciente, voluntário e intencional. Ninguém vai drogado, desmaiado ou em estado de coma para o registo civil. O problema está em fazer depender essa decisão de um critério que nada tem de racional, voluntário e intencional, sendo antes mais o efeito de uma droga. O que é verdadeiramente espantoso é fazer depender uma decisão tão importante de uma espécie de drogado desvario, mas drogado desvario que continua a ser privilegiado como critério de legitimação matrimonial. As pessoas casam porque estão apaixonadas. Não casam porque não estão apaixonadas. Só que aqui a relação de causalidade não funciona. Escolhe-se um jogador para lateral esquerdo porque é canhoto. Selecciona-se a pessoa para aquele emprego porque mostrou ter perfil para isso. Nestes casos, sim, a causalidade funciona. Porém, dizer que duas pessoas irão ser felizes porque estão apaixonadas já é completamente diferente. A paixão não é causa de felicidade, como o frio é a causa da congelação ou o calor causa da dilatação dos corpos. Paixão e felicidade são duas realidades desconexas e descontínuas.
Daí as pessoas, passando o efeito da poção e depois de uns segundos a esfregarem os olhos como se tivessem acabado de acordar ou de ter descido à terra, começarem a tentar encontrar motivos racionais que justifiquem e sustentem a sua relação.
Em suma, é mais ou menos isto: as pessoas apaixonam-se porque beberam uma poção mágica sem que disso estivessem à espera. Por causa disso decidem casar. Mais tarde, passam o resto da vida a pensar, procurando motivos que o justifiquem. É, digamos, a fase intelectual do casamento, em que se pensa mais do que se beija. Por razões óbvias, muitos nunca chegarão a encontrá-los, transformando-se assim o casamento numa espécie de imbróglio metafísico.