23 março, 2013

THE DARK SIDE OF THE MOOD


Ainda hoje uma notícia como esta me deixa algo embaraçado e até envergonhado. Este foi o primeiro disco da minha vida, recebido como prenda de Natal mal acabara de fazer 13 anos. Eu conhecia centenas de canções ouvidas ali e acolá, mas foi nesse dia que descobri a música. 
Ainda hoje, gostando de coisas que já nada têm que ver com aquele disco, percebo que foi começando por gostar daquele disco que gosto delas. Daquele disco e dos outros discos dos Pink Floyd que viriam a seguir. A partir daquele dia tornei-me um pinkfloydiano como se fizesse parte de uma seita para a qual, cada novo disco era mais um volume de uma Bíblia musical cujos fascículos eu ia coleccionando. Hoje, apesar de já não ter ouvidos para os Pink Floyd, estou certo de que aquela música ficou gravada no meu código genético musical e sobrevive activamente no meu atemporal inconsciente musical como os sonhos que vêm ter connosco durante o sono sem sabermos de onde vêm e como chegam. 
O disco foi-me trazido de Paris. O facto de me ter chegado às mãos vindo de França, em vez da discoteca ali da esquina, tornou aquele objecto ainda mais especial e raro, tão especial e raro como aquela música. Aquela música era estranha, nunca ouvira nada assim mas, ao mesmo tempo, ia sentindo que era dela que eu estava à espera como se espera uma primeira paixão, e que era aquela música que seria preciso ouvir como ter nos braços a rapariga por quem nos apaixonamos pela primeira vez. É como se estivesse desde sempre à espera daquela música e, finalmente, aquela música tivesse vindo parar às minhas mãos. E se eu sentira que tinha estado à espera daquela música, não era menos forte a sensação de que aquela música, aquele disco, tivesse sido feito para mim. Aquele disco era meu, era o meu primeiro disco, sem saber que havia mais discos iguais àquele para outros ouvirem. 
A minha grande desilusão começou quando, na escola, vi um tipo com um disco igual ao meu debaixo do braço. Percebi então que apesar do meu disco ter vindo de França, também se vendia em Portugal para quem o quisesse comprar. E o choque foi ainda maior quando, ao passar numa discoteca, vi aquela bela e única capa negra na montra. O meu disco não era o meu disco, aquela música não era a minha música. Aquele disco era um disco para toda a gente, para qualquer pessoa que desejasse comprá-lo. Foi como ter perdido a virgindade com uma rapariga que eu acreditava ter igualmente perdido a virgindade comigo e vir depois a descobrir que já tinha estado com vários tipos antes de mim.
Tudo isto aconteceu há muitos, muitos anos. Mas ainda hoje não consigo ficar indiferente a uma notícia como aquela a que me refiro no início. Devido à idade que tenho actualmente, deveria sentir vergonha. As pessoas têm que crescer e deixarem-se de picuinhices infantis. Mas também é verdade que há traumas que nunca na vida iremos ultrapassar.