25 março, 2013

SHINE ON YOU CRAZY DIAMOND

Robert Mapplethorpe

O papa Francisco, elogiando as virtudes do envelhecimento, comparou este processo com o de um bom vinho. Diz que um vinho vai melhorando com os anos, passando-se o mesmo com um ser humano, graças a certas virtudes que só a idade trará. Eu entendo a analogia e, estando eu a envelhecer, acho-a bonita e até fico sensibilizado.
Mas não se trata de uma analogia fácil de interiorizar. Percebo que o ethos de um clérigo seja favoravelmente condicionado pelo seu envelhecimento. Quanto mais velho e ar de avôzinho apresentar, mais confiança teremos nele e mais facilmente olharemos para ele como alguém que gostaríamos de ter sempre ao nosso lado para nos dar colo e mimo. É isso que as crianças gostam de ver nos seus avós e um clérigo ficará certamente feliz por induzir tal sentimento no seu rebanho. Mas é uma analogia que não colhe num mundo materialista, mercantilizado, hedonista, individualista e egocêntrico. Outros valores se levantam e a velhice será inevitavelmente um decadente processo de perda de cotação num mundo onde a identidade de cada um depende cada vez mais do brilho com que pretende ofuscar os olhos dos outros. Francisco, como anteriormente João Paulo II, irá certamente brilhar. Mas o seu céu não é o mesmo que o nosso. No nosso, quanto maior for a escuridão maior será o brilho da estrela.