16 março, 2013

PSYCHO CHICKEN

Francesca Woodman

Ontem fui atacado pelo insólito e terrível sensação de inquietante estranheza. Estava para jantar apenas uma sopita e uma fatia de pão com queijo quando, de repente, fui arrebatado por um compulsivo e desvairado desejo de comer frango assado com batatas fritas. De vez em quando tenho uns arrebatamentos destes mas é com chocolate. Eu adoro chocolate e quando me sinto mais nervoso ou carente, sou rapaz para sair de casa só para comprar chocolate. Mas com frango assado e batatas fritas nunca me tinha acontecido. Mesmo aqui ao lado da minha casa há uma coisa que vende comida para fora onde se assam frangos. Ora bem, eu já estava com roupa de andar por casa, chuviscava e fazia frio, estava cansado. Mesmo assim vesti-me para enfrentar o mundo e regressar a casa com um frango assado e batatas fritas. 
Quando voltava, devia estar com o ar de quem corre aflito para ir à casa de banho. Eu só queria chegar e comer o frango e as batatas fritas, vinha no caminho e a minha imaginação fazia-me sentir a coxa do frango a ser despedaçada pelas minhas atávicas mandíbulas, misturada com três salgadas batatas desfeitas.
Se alguém de um prédio em frente me visse naquele momento à mesa, iria pensar que eu era um indigente acabado de ser recolhido por uma alma caridosa. Foi ontem mas lembro-me da sensação como se fosse há 5 minutos. Comi o frango e as batatas fritas com o mesmo sôfrego prazer de um recluso que sai de uma prisão onde estivera 6 meses a pão e água. Nem mesmo com chocolate tal me acontecera. No fim, depois de comer até já não poder mais, senti-me estupidamente empanturrado mas, ao mesmo tempo, com uma feliz e homeostática sensação de apaziguamento físico e mental. Como se tivesse acabado de defender uma tese depois de meses de trabalho, de ver o Benfica marcar o golo da vitória já no último minuto dos descontos ou acabado de dar um par de estalos no primeiro-ministro. Foi ontem, já passou, eu sei, mas ainda hoje me sinto confuso e sem saber o que pensar. Se é bom ou mau ter estes impulsos, viver com estes arrebatamentos.
Por um lado, acho que é mau. É como ficar preso a uma força indomável, a um poder que não conseguimos controlar. Onde está o meu livre-arbítrio no meio de tudo isto? Eu quis não comer o frango, não ter que me vestir, ir para o frio e para a chuva, eu queria comer a sopa que já ali estava à minha espera mas, depois, perdi toda a minha capacidade de dizer não. É tremenda, esta sensação de não ser livre, de estar preso numa cadeia causal da qual não nos conseguimos livrar.
Mas depois penso como seria bom se nós desejássemos tudo o que desejamos com esta intensidade. Como na vida em geral deve ser bom fazermos tudo o que fazemos com o mesmo desejo que eu senti ontem de comer o frango assado com batatas fritas. A vida seria uma festa de desejos, uma farra de desejos. Viver assim seria viver sempre no Evereste do desejo, tudo seria pleno, intenso, máximo, eloquente.
Mas isso só seria possível se fôssemos substâncias simples em vez de complexos organismos inteligentes. A inteligência, a cabeça, a mente, é que dá cabo de nós. Ah, que bom seria os nossos desejos serem automaticamente regulados como nos invertebrados e unicelulares. Ou, ok, sermos vertebrados mas máquinas perfeitas, apenas quimicamente oleadas com adrenalina, noradrenalina, hidrocortisona, endorfinas,  catecolaminas, dopamina e tantas outras coisas acabadas em "ina".
Mas somos inteligentes, e inteligentes temos que viver. O frango assado, esse, felizardo, nem sequer sabia que vai morrer. Agora nós, por causa da merda da lucidez, conseguimos parecer mais tontos do que os próprios frangos que não sabem que irão morrer. Nem sequer sabem que são frangos. Nós, por causa da inteligência, em vez de máquinas desejantes somos máquinas pensantes. Pensamos, logo existimos? Bom proveito!