04 março, 2013

PATHETAS



Alma Mahler tinha uma conhecida característica que não foi aqui esquecida. Sendo surda de um ouvido, inclinava ligeiramente a cabeça na direcção da pessoa com quem falava, o que, associado ao esforço que fazia para ouvir, dava ao rosto uma expressão de hiperbólica atenção que induzia no seu interlocutor um sentimento de intimidade, contribuindo para aumentar ainda mais o seu poder sedutor. Não por acaso foi Alma o epicentro de muita actividade sísmica em tantos corações numa Viena cuja intensa vida intelectual, cultural e artística facilmente se via submetida aos poderes ocultos da alma.
O que é caricato nesta disposição física da viúva de Mahler é o modo como uma simples marca patológica facilmente se transforma num trunfo estético no qual se dissimula. Talvez se trate do mesmo princípio que faz com que o alcoolismo, repugnante numa pessoa vulgar, se torne num traço excêntrico num artista, podendo ser mesmo reconhecido como um estímulo para a sua actividade. Ou como o feitio irascível que detestamos numa pessoa comum passa a ser encarado como glamour num intelectual ou escritor. Ou como uma mania, superstição ou qualquer outra marca irracional, vista com desdém iluminista se se tratar de uma pessoa comum, pode ser entendida como aceitável capricho num grande actor de cinema.
Trata-se aqui de uma certa esteticização do pathos. No caso da mulher torna-se ainda mais evidente, uma vez que é muito mais subtil do que o homem a transformar as suas fraquezas, incluindo as patológicas, em instrumentos de sedução. A tuberculose ou a palidez de um rosto doente foram sempre mais sedutoras numa mulher do que num homem. A perfídia feminina alimentou sempre muito mais a criativa imaginação artística do que a masculina e sentimos mais compaixão pela loucura de Ofélia já esquecida de si própria entre flores e limos do que pelas angústias existenciais de Hamlet.
Alma era doente, de uma doença que tinha tanto de insinuante como de contagioso, e cujas vítimas com vidas desvairadas tanto contribuíram para enriquecer a arte no século que também foi o de Freud.