14 março, 2013

PAPÁ!


Vejam-se os rostos destes papistas após ter sido anunciado o novo papa. A sua ansiedade enquanto aguardavam um nome e um rosto é muito parecida com a ansiedade de um jovem que nunca conheceu o pai, sabendo que, dentro de instantes, irá aparecer em todo o seu esplendor. Assim tipo Ponto de Encontro, aquele programa apresentado em tempos pelo saudoso Henrique Mendes. É por isso que o papa é muito mais do que um simples estadista. O papa é um pai, o homem (já que não pode ser mulher!) cujas palavras, gestos, expressões ou até simples presença física, são faróis que guiam o povo papista. As crianças olham muitas vezes para nós para verem como estamos a ver ou a reagir ao que elas também estão a ver mas sem saberem muito bem como reagir. Porquê? Porque como não têm autonomia para fazer a sua própria avaliação, ficam dependentes da nossa. Quer dizer, se nós nos rimos a ver um filme é porque deve ter mesmo graça, se olhamos intensamente e comentamos com interesse o que elas também vêem é porque deve ser mesmo interessante. Eu tenho filhos e sobrinhos que foram crianças e sei bem como é.
 Os papistas, depois de uns dias de orfandade, sabiam que iriam ter um papa. Mas os dias de espera, os dias sem papa, equivalem à situação de uma criança a ver televisão sem um adulto ao pé. E ao surgir o novo papa na varanda, é como se o pai e a mãe da criança viessem para o sofá, sabendo agora que se irá sentir mais confiante a ver o programa. Daí a reacção destas pessoas perante o anúncio de um novo papa. E reagiram perante o nome deste da mesma maneira que reagiriam perante o nome de um outro qualquer, fosse intelectual ou não intelectual, com ar de avozinho alpino ou de príncipe renascentista, o que estas pessoas queriam mesmo era um papa, tal como as crianças querem um pai ou uma mãe, embora neste caso só se possa ter um pai.
Existe, por isso, uma enorme diferença entre papistas e protestantes. Os ingleses, holandeses, suecos, dinamarqueses, assim como a maioria dos alemães, vivem bem sem um papa. Vivem perdidos por causa disso? Vivem sem um sentido para as suas existências? Vivem sem referências morais? Sem valores? Um dos aspectos mais marcantes da reforma protestante reside no facto de que mais importante do que um cérebro central a comandar a cristandade é a relação entre a consciência de cada cristão e o seu Deus, ainda que mediada pelo seu pastor.
Obviamente que a igreja papista já não é aquela contra a qual se insurgiu Lutero. Mas não deixa de haver grandes diferenças entre a consciência individual de um papista e de um protestante no modo como gerem a sua relação com o mundo. O centralismo pontifício encara o fiel como uma criança carente de orientação parental. Não apenas em aspectos teológicos ou evangélicos mas de natureza extra-religiosa. Há na tradição papista uma infantilização do seu povo. Uma valorização dos decretos papais em detrimento da autonomia racional do papista. Aliás, é sintomático o facto de o ainda cardeal Ratzinger, defender a ideia de que os papistas deveriam ser protegido dos intelectuais. O que não deixa de ser engraçado sendo ele próprio um intelectual.
É por tudo isso que o papa é um verdadeiro papá. Um papá que, do alto da sua dogmática infalibilidade, é nosso amigo, nos protege, nos diz o que pensar, fazer ou sentir. Não estou a fazer ironia grosseira. Basta ir a um dicionário de Grego ver o que significa papa.