22 março, 2013

O SEXO DOS ANJOS

 Julia Margaret Cameron

Notícias como esta, em que fico a saber que há situações nas quais aos próprios cientistas apenas resta mandar rezar, fazem-me pensar o quanto é injusta a escarninha atitude a respeito da bizantina discussão de Constantinopla sobre o sexo dos anjos. É verdade que a cidade estava a ser arrasada que mais parecia o fim do mundo e os cristãos a serem barbaramente esfrangalhados por turcos sádicos e cruéis. Mas entre morrer na rua no meio de tanto sangue, tanta confusão, tanta gritaria histérica e dorida, ou esperar tranquilamente pela morte, sentado num sítio confortável a reflectir e discutir animadamente sobre uma coisa que não existe, a segunda alternativa afigura-se bem mais confortável. Morrer é morrer, seja na cama, na rua ou durante uma discussão teológica. A Teologia é a ciência do que não existe mas que é pensado, analisado, argumentado e discutido como se existisse. E é precisamente nisto que está a sua riqueza, imaginação e criatividade. Eu, como não sei rezar e porque também nunca tive jeito para jogar xadrez, no momento da colisão de um asteróide, em vez de andar desvairado pela rua aos gritos, coisa que não faz nada o meu género, preferiria esperar sentado a reflectir sobre coisa nenhuma, hábito do qual tantos seres humanos se ufanam. No fundo, começámos como coisa nenhuma e é como coisa nenhuma que iremos necessariamente acabar. O que nos separa dos anjos é apenas um pequeno instante temporal entre dois nadas.